A entrega das declarações do Imposto de Renda foi mais ágil neste ano do que em 2025, com mais de 95% dos documentos previstos transmitidos à Receita até às 18h da última sexta-feira, 29 de maio, uma aceleração em relação aos 90,3% no último dia do prazo do ano passado. O ganho de velocidade pode ser atribuído à declaração pré-preenchida e até à inteligência artificial, segundo relatos de contadores que são parceiros do InfoMoney na cobertura do tema.
“Há décadas atendo contribuintes com entrega anual de seu Imposto de Renda e percebo que, ao longo desses anos, mudanças significativas vêm ocorrendo”. É como enxerga João Yanase, professor do curso de Contabilidade da Trevisan Escola de Negócios.
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“Hoje, boa parte já recebe sua declaração pré-preenchida. As mudanças facilitam a vida dos contribuintes, simplificando de maneira pontual os trabalhos para preenchimento e a entrega da declaração. Com a disseminação do uso da IA, os contribuintes ganharam mais um recurso de apoio”, afirma.
“É uma tendência natural que, com tecnologia e IA, além das facilidades que a Receita tem implementado e melhorado, como declaração pré-preenchida e até o ReVar, o contribuinte ganhe cada vez mais autonomia, principalmente aquele que têm declarações mais simples”, avalia Richard Domingos, CEO e sócio da Confirp Contabilidade.
De fato, a utilização da declaração pré-preenchida, que carrega automaticamente todas as informações que constam na base de dados da Receita Federal necessárias para a prestação de contas no ajuste anual, já é majoritária. Neste ano, 60% das declarações foram entregues nesse modelo, um aumento importante em relação aos 50,3% do ano passado.
Na outra ponta, a IA parece firmar-se como uma espécie de assistente dos contribuintes. “A falta de recursos para contratar profissionais habilitados e experientes tem levado os contribuintes a usar IA para orientar a própria declaração, mas não somente”, afirma a contadora Camilla Oliveira, que assessora tanto casos mais complexos quanto contribuintes com declarações mais cotidianas.
A especialista acredita que o uso de IA para orientar a declaração do Imposto de Renda aumentou em 2026 – embora não seja possível precisar isso. “Senti uma mudança na demanda. Acho que o uso de IA cresceu muito. E o que observei nesse ano é que recebi mais pessoas com complicações na declaração após a transmissão, em um segundo momento”.
O InfoMoney perguntou à Receita Federal se o Fisco havia recebido relatos sobre o suposto aumento do uso de IA na temporada do IR, se havia alguma relação entre declarações retidas e o uso da tecnologia e como avaliava esse cenário. A resposta foi: “A Receita Federal não tem relatos sobre contribuintes que tiveram a declaração retida por conta do uso de IA, nem estudos para emitir opinião sobre seu uso ou não por parte do contribuinte”.
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A reportagem perguntou ao próprio ChatGPT quantas pessoas ele havia ajudado a fazer a declaração do Imposto de Renda. A mensagem elaborada pelo chatbot foi: “Eu não tenho acesso a dados internos sobre quantas pessoas ajudei a declarar o Imposto de Renda, mas considero plausível que esse número tenha crescido de 2025 para 2026. Isso porque o uso de inteligência artificial para tarefas práticas do dia a dia aumentou significativamente, inclusive no Brasil, e temas como declaração de IR, investimentos e renda no exterior passaram a aparecer com mais frequência nas conversas dos usuários“.
Domingos, da Confirp, disse que não houve queda na demanda pelos seus serviços, voltados para declarações mais robustas. “A gente trabalha com declarações de empresários, mais robustas, com mais bens, operações internacionais, investimentos em renda variável. Então, de um modo geral, fomos mais procurados nesse ano do que no ano passado. Mas acredito que esse sentimento seja diferente no caso dos profissionais que atendem outro público”.
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O que os profissionais da contabilidade pensam sobre o uso de IA como “assistente tributária”
Os especialistas veem a IA como uma aliada pontual, não como substituta do olhar humano na declaração. Para eles, a tecnologia é bem-vinda para tirar dúvidas de regras – como “quem pode ser seu dependente”, “quais despesas de saúde são dedutíveis” ou “como lançar previdência privada” – e para reduzir o esforço de preenchimento. Mas, na avaliação deles, a IA não deve assumir a função de montar a declaração do começo ao fim.
Yanase alerta que o ponto mais sensível do IR é a coerência entre rendimentos, evolução patrimonial e despesas, algo que exige julgamento humano. “Qualquer desequilíbrio nesses valores pode levar à malha fina”, diz. Ele lembra que gastos em cartão de crédito, compra de moeda estrangeira e passagens aéreas já são conhecidos da Receita pelo CPF, e omiti-los é “risco potencial de malha fina” – um tipo de decisão que não deveria ser simplesmente “confiada à IA”.
Charles Gularte, sócio-diretor de contabilidade e relações institucionais da Contabilizei, vê valor na IA, mas com limitações claras. “O uso de uma solução tecnológica pode ser útil e, às vezes, ter um custo-benefício interessante, mas isso não significa que não haverá mais a necessidade da conferência dos dados”, afirma. Para o executivo, com ou sem IA, “a responsabilidade da prestação de contas continua sendo toda do contribuinte”, e o papel consultivo do contador continua essencial nas dúvidas técnicas e na validação final da declaração.
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Gularte acrescenta ainda um ponto que ganha peso com a IA: segurança da informação. Ferramentas desse tipo costumam pedir dados sensíveis – CPF, renda, bens – e nem todas têm maturidade em proteção de dados. “Se a plataforma não for confiável ou não adotar boas práticas de segurança, existe risco de vazamento ou uso indevido dos dados”, alerta.
