Na noite em que o mapa político dos Estados Unidos sofreu seu abalo mais sísmico nos últimos anos, o auditório do Performing Arts Center, no centro de Austin, capital do Texas, transbordava em uma euforia represada por quase quatro décadas. No palco, sob o pano de fundo de uma gigantesca estrela solitária e ladeado por apoiadores em chapéus de cowboy que empunhavam mini-bandeiras do estado, um jovem de 37 anos trajava jaqueta escura, camisa branca de colarinho aberto e calça jeans. No púlpito onde discursava, lia-se uma mensagem singela: “Ame o seu próximo”.
O democrata James Talarico acabava de realizar o que muitos analistas consideravam matematicamente impossível: derrotar a máquina republicana no Texas e quebrar um jejum partidário que durava desde 1988, quando o veterano Lloyd Bentsen conquistou a última vaga democrata ao Senado pelo estado. Talarico sequer era nascido quando Bentsen venceu aquela eleição.
Mais do que uma vitória eleitoral, a ascensão do jovem deputado estadual e seminarista evangélico representou uma fissura profunda na fortaleza conservadora americana, impondo uma derrota acachapante a Donald Trump e ao bilionário Elon Musk, que despejou quantias colossais na campanha republicana.
Tsunami azul
O Texas sempre foi tratado pelo Partido Republicano como um reduto inexpugnável. Nas eleições presidenciais de 2024, Trump havia vencido no estado por uma margem confortável de quase 14 pontos percentuais. Nenhum democrata ocupava um cargo de projeção estadual no Texas desde 1994, e sucessivas tentativas de virar o estado nas últimas décadas — incluindo a ruidosa campanha de Beto O’Rourke contra Ted Cruz em 2018 — naufragaram na apuração.
Nas eleições de meio de mandato, a vitória de Talarico redesenhou essa geografia. O feito impulsionou a virada nacional da sigla no Congresso, ajudando os democratas a conquistarem a maioria no Senado ao virarem sete cadeiras originalmente republicanas. A mobilização do eleitorado jovem e dos latinos — que representam mais de 40% da população texana — revelou-se decisiva para consolidar a mudança.
Em seu discurso de vitória, Talarico evocou a alegoria bíblica de Davi e Golias para resumir sua saga.
“Nesta corrida, enfrentamos nossos próprios Golias: o homem mais rico do mundo, o homem mais poderoso do mundo e todo o establishment de Washington. O povo do Texas foi a minha atiradeira e, nesta noite, nós derrotamos Golias”, declarou a apoiadores.
Das salas de aula à teologia
Nascido e criado nos arredores de Austin, Talarico construiu uma trajetória intelectual e profissional fora dos moldes tradicionais de Washington. Graduado em ciência política com especialização em governabilidade, ele obteve o título de mestre em políticas educacionais pela Universidade Harvard.
Antes de ingressar na política, trabalhou na linha de frente da educação pública como professor de ensino fundamental. Essa vivência moldou sua percepção sobre as desigualdades sociais do estado e o motivou a buscar uma formação teológica complementar: concluiu um mestrado em estudos teológicos e tornou-se seminarista presbiteriano.
Sua estreia eleitoral ocorreu em 2018, quando se candidatou à Assembleia Legislativa do Texas. Eleito deputado estadual aos 29 anos, renovou seu mandato por quatro vezes consecutivas. No legislativo texano, Talarico consolidou a reputação de um articulador hábil e focado na defesa da escola pública, construindo pontes entre progressistas urbanos, moderados e eleitores de áreas suburbanas.
Evangelho antinacionalista
O grande diferencial estratégico de Talarico na disputa foi sua capacidade de desarmar o monopólio da religião exercido pela direita republicana. Em um estado onde o nacionalismo cristão se tornou dogma eleitoral, ele usou sua fé evangélica presbiteriana para propor um contraponto moral e progressista.
Enquanto a ala conservadora alinhada a Trump promovia uma agenda de rigidez dogmática, o democrata pregou o que chamou de “política do amor”. Evangélico praticante, defendeu abertamente a diversidade religiosa, os direitos das pessoas transgênero e da comunidade LGBTQIA+, chegando a declarar publicamente que “Deus é não binário”.
O seminarista também fez de sua fé o motor de críticas severas às políticas anti-imigração e popularizou o mantra que marcou sua campanha por todo o estado: “A verdadeira divisão nos Estados Unidos não é entre esquerda e direita, mas entre os de cima e os de baixo”, disparou comício após comício, mirando os bilionários.
Ao priorizar o combate ao custo de vida e a moralização da vida pública, Talarico atraiu cristãos desiludidos com o extremismo político e eleitores independentes exaustos da polarização.
Rival trumpista
Para conquistar a vaga no Senado, Talarico precisou superar o republicano Ken Paxton, de 63 anos, procurador-geral do Texas e aliado incondicional de Trump. Escolhido nas primárias republicanas — nas quais derrotou o experiente senador John Cornyn, de 74 anos —, Paxton chegou à disputa ostentando uma extensa ficha de polêmicas.
Paxton fora indiciado por fraude no mercado de valores — processo resolvido apenas em 2024 mediante acordo que exigiu prestação de serviços comunitários, treinamento de ética e restituição financeira — e sofreu impeachment na Câmara do Texas em 2023 por acusações de suborno e abuso de poder. Embora tenha sido absolvido pelo Senado estadual, sua candidatura era vista com tanta reserva por lideranças republicanas tradicionais que o próprio Cornyn evitou declarar apoio ao colega de partido.
Diante da vulnerabilidade de Paxton, a máquina republicana acionou uma ofensiva financeira inédita. Musk injetou entre US$ 150 milhões e US$ 200 milhões através de super PACs para tentar segurar a vaga com os republicanos, financiando os seis anúncios políticos mais caros de todo o país naquela eleição. Ao todo, os gastos publicitários na disputa superaram a marca de US$ 500 milhões.
A ala trumpista apostou pesado em ataques pessoais. Trump apelidou o democrata de “James Talafreako” e espalhou a falsa informação de que ele seria vegano. O vice-presidente J.D. Vance insinuou erroneamente que o candidato democrata seria homossexual — ignorando que ele tem namorada. Influenciadores de extrema direita chegaram a inventar que ele teria dado entrada em uma clínica psiquiátrica em Ohio, quando na verdade ele se recuperava de uma gripe.
Talarico respondeu construindo uma poderosa rede de financiamento popular. No terceiro trimestre, sua campanha arrecadou US$ 64 milhões, dos quais 97% vieram de doações individuais, inferiores a US$ 100. A narrativa do candidato comunitário contra os superdoadores bilionários funcionou como combustível eleitoral. Como apontou Adam Green, cofundador do Progressive Change Campaign Committee, Talarico mostrou aos democratas como vencer no Texas enfrentando o poder dos bilionários e defendendo mudanças estruturais.
Novo rumo
A vitória de Talarico reconfigura o equilíbrio de poder no Capitólio e projeta seu nome como uma das lideranças mais promissoras da política americana. Ao assumir a vaga aos 37 anos, ele se tornará o membro mais jovem do Senado dos Estados Unidos.
Suas prioridades declaradas para o mandato incluem a defesa da saúde universal, a proibição de que congressistas negociem ações no mercado financeiro, o combate à influência do grande capital nas eleições e o fim de guerras de longa duração no exterior.
Em seu discurso final de apuração, Talarico resumiu a virada não apenas como um resultado partidário, mas como um divisor de águas cultural.
“Enviamos uma mensagem a cada megadoador bilionário e a cada defensor corrupto deste sistema político quebrado: o poder pertence ao povo. Chega de dez anos de política como esporte sangrento, como provocação ou como luta livre profissional. É hora da política do amor”, declarou.
Com a bênção das urnas e o prestígio de ter dobrado o bastião conservador texano, Talarico chega a Washington disposto a provar que a união e a defesa dos direitos sociais podem ditar o novo tom da política americana.
Fonte: Abril


