O recente aquecimento do mercado de trabalho, marcado pelo aumento da renda e do número de vagas, não tem se traduzido em alívio financeiro para a população. De acordo com um estudo do Centro de Liderança Pública (CLP), divulgado nesta sexta-feira (8), uma fatia crescente dos ganhos obtidos com o emprego está sendo absorvida por dívidas, juros e parcelas, o que recoloca o endividamento das famílias no centro da política econômica do país. 

O documento destaca dados que mostram um cenário de contrastes. No trimestre encerrado em janeiro de 2026, a renda média real bateu recorde e chegou a R$ 3.652, enquanto a massa de rendimento alcançou o maior nível da série histórica: R$ 370,3 bilhões. A população ocupada também atingiu a marca inédita de 102,7 milhões de pessoas. 

Mas, ao mesmo tempo, dados do Banco Central (BC) mostram que, em fevereiro, as dívidas das famílias alcançaram 49,9% da renda, igualando o pico histórico registrado em julho de 2022. O comprometimento da renda subiu de 29,5% para 29,7%, o que indica continuidade de gastos, além de quase um terço dos ganhos das famílias já estar comprometido com dívidas.

Para Daniel Duque, head de Inteligência Técnica do CLP e autor da nota, esse ambiente transforma o que seria apenas um problema macroeconômico em um desgaste político. “O trabalhador está empregado, mas endividado. O salário cresce, mas a parcela cresce junto”, destaca o documento, apontando que a situação frustra a narrativa governamental de que o emprego, por si só, restauraria a sensação de prosperidade. 

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Crédito consignado: mais crédito e mais dívida

A tentativa de aliviar o peso das dívidas do trabalhador tem passado pelo crédito consignado privado. Em março, impulsionadas pelo novo modelo do Crédito do Trabalhador, as concessões para trabalhadores do setor privado saltaram 52% em relação a fevereiro, indo de R$ 7,146 bilhões para R$ 10,864 bilhões. 

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Para Duque, a promessa do novo consignado era “defensável, em tese”, porque permitiria migrar as dívidas de juros mais caros para outras, com linhas mais baratas, com desconto em folha, menor risco para os bancos e taxas inferiores às de modalidades como cartão e crédito pessoal. Mas o problema, segundo o CLP, é que o Banco Central (BC) já havia recomendado cautela neste modelo após analisar o comportamento dos tomadores dessa linha em 2022. 

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Segundo o relatório, o BC constatou que, em vez de apenas substituir dívidas, o consignado elevou o estoque total de passivos: houve um aumento médio de endividamento de cerca de R$ 5 mil após a contratação. O comprometimento da renda, que era de 28% antes do empréstimo, saltou para 33% no mês seguinte e chegou a 38% após 11 meses. 

Segundo o CLP, trocar dívidas caras por outras um pouco menos caras — estratégia que o governo deve tentar repetir com o programa Desenrola 2 — não resolve o problema de fundo. 

Juros altos e limite fiscal

A análise do CLP vai além do orçamento doméstico e aponta que a economia brasileira usa o crédito como tentativa de manter vivo um modelo de expansão que já atingiu seus limites. O atual governo impulsionou a demanda com um crescimento real de 12,9% na despesa primária federal. O gasto sustentou a renda e o crédito bancou o consumo. A consequência, contudo, é a pressão inflacionária que leva a juros elevados. 

Em junho de 2025, o Banco Central elevou a taxa Selic em 15% ao ano e deixou estacionada neste patamar  — o maior desde julho de 2006 — até março deste ano, quando foi a 14,75% e, agora, está em 14,5%. 

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Como reflexo, a taxa média de juros do crédito livre para pessoas físicas estacionou no patamar punitivo de 61,5% ao ano, impulsionando a inadimplência das famílias para 5,3% (uma alta de 1,4 ponto percentual em 12 meses). 

Pelo canal fiscal, o limite também se aproxima, alerta o CLP. O estudo cita dados do Ipea, de 2025, que projetam uma trajetória ascendente para a dívida bruta do governo geral: 79,6% do PIB no fim de 2025, 83,7% em 2026 e 87,0% em 2027, o que deixa o Estado sem espaço para ampliar gastos.

Como solução, o documento do CLP defende controlar o crescimento das despesas públicas, para contribuir com o ambiente de queda de juro, e frear o impulso de crédito estimulado pelo governo sobre famílias já excessivamente comprometidas. 

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A nota técnica sugere ainda medidas mais ambiciosas, como a venda de ativos públicos subutilizados para abater a dívida e abrir espaço para investimentos reais. 

“O ciclo de gasto, crédito, consumo e emprego comprou tempo, mas não comprou sustentabilidade. Agora, a conta chegou”, afirma Daniel Duque.


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