O outono é, sem dúvida, a melhor época para ganhar a estrada sobre duas rodas. O clima contribui com pouca chuva e as temperaturas amenas tornam a pilotagem muito mais prazerosa.
Com isso em mente, o destino escolhido foi a Serra do Mar paranaense, com o diferencial de que parte do trajeto seria feito de trem turístico, levando as motos a bordo. A empresa operadora do passeio adaptou um vagão específico com sistema de fixação de motocicletas —serviço raro no Brasil, disponível apenas aqui e no trajeto Salto-Itu, no interior de São Paulo.
A jornada começa com o planejamento do embarque de três motos (a da reportagem é de mais dois aventureiros) no trem da Serra Verde Express. As vagas são limitadas (apenas cinco por passeio, a R$ 115,00 cada, comprado junto com o bilhete do passageiros) e o transporte só acontece no sentido Curitiba-Morretes. Para garantir o embarque de todos, é bom comprar com alguma antecedência.
Com as vagas confirmadas, saímos de Santo André, na região metropolitana de São Paulo, às 5h da manhã para evitar o trânsito da capital. A primeira parada estratégica foi em Capão Bonito/SP, na BR-373, para um café e um último fôlego antes das curvas.
Duas horas depois, já em Apiaí (SP), o registro obrigatório: a foto no totem da Serra do Rastro da Serpente (SP-476). É um trecho sagrado para motociclistas, que nos conduz até a região metropolitana de Curitiba. E na mesma rodovia, mais uma pausa, no Monumento Bikers, na cidade de Bocaiúva do Sul (PR).
Já na região metropolitana de Curitiba, em Colombo, mais cuidado com a velocidade, pois haviam radares a cada 500 metros. Chegamos no hotel por volta das 16h30. Um banho, uma pausa para ver mensagens e logo fomos procurar um local para jantar, já que dormir tarde não era opção –o despertador tocaria às 5h45.
Seguimos todas as orientações: tanques quase vazios para evitar vazamentos e nada de itens pessoais (como capacetes ou jaquetas) no vagão especial. Após um check-list rigoroso de avarias e a fixação das máquinas com tirantes (uma espécie de cordão com presilhas) , voltamos ao hotel a pé para o café e o check-out definitivo. Às 8h já estávamos de volta à estação, prontos para o nosso embarque.
A descida pela Serra do Mar é um espetáculo. Chegamos a Morretes por volta das 11h30. Como o vagão das motos era um dos primeiros da composição, o desembarque foi ágil –a estação litorânea é pequena, então, esse processo ocorre em fases. Na sequência, o foco era o almoço oficial do lugar: o tradicional Barreado, prato típico que obrigatório na região.
Depois de um tempinho pelas simpáticas ruas de Morretes, pegamos o rumo de volta pela esplêndida estrada da Graciosa (PR-410), inaugurada em 1878 seguindo as trilhas indígena que já venciam aquela serra há muitos anos. Em apenas 28,5 km de extensão —boa parte, tombada, ainda calçada com paralelepípedos–, o trajeto tem mais de 400 curvas que passam por mirantes disputados.
As curvas em meio à vegetação fechada, neste que é o trecho de mata atlântica mais bem preservado do bioma, formam o cenário perfeito para quem busca saciar o desejo incessante de ver o horizonte passar pela viseira.
O trecho final de retorno, pela Régis Bittencourt e a Serra do Cafezal, exige atenção redobrada pelo volume de caminhões. Mas o asfalto em boas condições garante um encerramento seguro para esses quase 900 km de aventura sobre duas rodas.
