A Zona da Mata mineira foi palco de um cenário devastador, onde temporais resultaram em tragédia humana, com dezenas de mortos e milhares de desabrigados. Especialistas ouvidos pela Agência Brasil apontam a negligência frente às mudanças climáticas e fatores humanos como causas primárias para as enxurradas, deslizamentos e cheias que assolaram cidades como Juiz de Fora e Ubá.

A Voz dos Especialistas: Mudanças Climáticas e Eventos Extremos

O geógrafo Miguel Felippe, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e especialista em hidrologia, é enfático ao correlacionar a intensidade dos temporais a eventos climáticos extremos. Segundo Felippe, 'quando estamos falando de extremos, de riscos ambientais, estamos falando de mudanças climáticas', alertando para a crescente frequência de tais ocorrências no futuro. Ele critica a 'onda negacionista' que, ao desconsiderar a pauta ambiental, reverberou nos desastres observados.

Negligência Política e o Impacto no Planejamento Urbano

A pauta climática, essencial para o planejamento urbano, tem sido historicamente negligenciada em todos os níveis de governo, tanto no Brasil quanto globalmente. Políticos frequentemente a apresentam como um obstáculo ao desenvolvimento econômico, um 'ativo na disputa eleitoral', conforme Felippe. Essa visão distorcida contribui para a perda de controle do poder público sobre terrenos urbanos, cedendo espaço ao capital imobiliário que, na prática, define a ocupação das cidades e empurra populações vulneráveis para áreas de alto risco ambiental.

Desigualdade e Vulnerabilidade Social

Consequentemente, as áreas mais atingidas e com maiores perdas de vidas e bens materiais são os bairros pobres. Essas comunidades, com menor capacidade de resiliência socioeconômica, enfrentam dificuldades exponenciais na reconstrução pós-desastre. O professor Felippe destaca a ironia de que as áreas de risco são conhecidas, mas a falta de investimento impede ações mitigadoras eficazes.

Cortes de Verbas e a Falta de Prevenção

A ausência de recursos adequados para a defesa civil estadual exemplifica a lacuna na prevenção. Levantamento do Jornal O Globo revelou que as verbas destinadas ao enfrentamento de chuvas em Minas Gerais caíram drasticamente de R$ 135 milhões para R$ 6 milhões entre 2023 e 2025, período que coincide com o segundo governo de Romeu Zema. Tal cenário compromete a capacidade de implementar políticas ambientais e de mitigação de riscos.

O Cenário de Juiz de Fora: Geografia e Aquecimento Global

A topografia de Juiz de Fora, caracterizada por áreas montanhosas, naturalmente suscetíveis a deslizamentos e inundações, agrava o cenário. A cidade recebe umidade direta do Oceano Atlântico, que, mais quente devido ao aquecimento global, gera maior evaporação. Essa umidade, ao encontrar as montanhas, condensa-se em chuvas intensas, conforme explicado por Marcelo Seluchi, coordenador do Cemaden. O município é um dos que mais emitem alertas do Cemaden, tendo recebido, em um único dia, quase a totalidade da chuva esperada para fevereiro, concentrando impactos em bairros como Morro do Imperador e Paineiras.

A Urgência da Conscientização e Planos de Contingência

Adicionalmente às políticas estruturais, a conscientização da população é vital. Muitos moradores de áreas de risco desconhecem os procedimentos em alertas geológicos. Felippe salienta a necessidade de 'ir a campo, conversar com as pessoas, instruir, ter um plano de contingência muito claro', para equipar as comunidades com o conhecimento necessário para proteger suas vidas e bens.

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