Os movimentos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump — de ameaças de anexação da Groenlândia à pressão sobre o Canadá e ao cerco à Venezuela — têm o petróleo como fio condutor e a China como alvo real. E o Brasil, dono de uma riqueza estratégica em minerais e energia limpa, segue sem um projeto nacional à altura do momento.

A leitura é de especialistas que analisaram o novo mapa geopolítico do poder mundial no programa O Clima na Faria Lima, do InfoMoney, apresentado por Marina Cançado, com a participação do jornalista Jaime Spitzcovsky e da historiadora Mônica Lungov.

“Trump percebe que, se controlar esses mercados exportadores de petróleo, vai ter algo em torno de 12% a 15% do petróleo que a China importa para negociar com Pequim”, avalia Spitzcovsky.

Oportunidade com segurança!

A lógica, segundo ele, é direta: Venezuela e Irã vendem entre 80% e 90% de seu petróleo à China — e dominar esse fluxo seria uma moeda de troca poderosa nas negociações comerciais com o gigante asiático.

Juntos, os convidados traçaram um panorama das disputas geopolíticas em curso e do papel que o Brasil poderia — mas ainda não consegue — desempenhar nesse cenário.

A corrida pelo Ártico

A disputa pelo Ártico segue a mesma lógica do petróleo. A região concentra vastas reservas de petróleo, gás natural e minerais críticos, além de abrir novas rotas marítimas com o derretimento do gelo.

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A Rússia já opera 42 navios quebra-gelo; a China se autodeclarou “potência sub-ártica”; os Estados Unidos contam com apenas dois ou três navios do tipo.

“Quando Trump fala em Canadá e Groenlândia, não é um devaneio. É um interesse estratégico por essa nova fronteira que se abre”, diz Spitzcovsky.

Riqueza sem projeto de nação

O Brasil, por sua vez, reúne praticamente todos os trunfos para protagonizar esse novo tabuleiro: minerais críticos, terras raras, matriz elétrica limpa e segurança alimentar. Mas, na avaliação dos dois convidados, o país segue preso a uma lógica de curto prazo que desperdiça oportunidades históricas.

“Nós já tivemos oportunidades de crescimento verdadeiro, de uma economia mais diversificada. E, no final, não saímos do mesmo ponto faz muito tempo”, diz Lungov. “É necessário entender quem queremos ser para chegarmos a algum lugar. Senão, vamos continuar patinando.”

Spitzcovsky concorda e recorre à história para ilustrar o argumento.

“Quando o mundo precisava de borracha, o Brasil tinha. Quando precisava de café, tinha. Quando precisava de carne e açúcar, tinha. Agora temos minerais críticos, fontes alternativas de energia. Mas o que falta é parar de depender de ciclos eleitorais e ter um projeto de nação.”

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Para aprofundar o tema, Lungov recomenda o livro O Rei do Petróleo — A Vida Secreta de Marc Rich, biografia do polêmico negociante que criou o mercado de compra e venda imediata de petróleo e cuja empresa se tornaria a Glencore (GLEN).

Já Spitzcovsky indica A China de Xi Jinping, do ex-primeiro-ministro australiano Kevin Rudd — estudioso do mandarim e uma das vozes mais respeitadas na análise do país asiático.


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