A dinâmica das canetas emagrecedoras está prestes a mudar: além da disputa das farmacêuticas, que querem ter sua própria versão do medicamento, agora o varejo do setor precisa prestar mais atenção.

A dinamarquesa Novo Nordisk, dona do Ozempic e Wegovy, lançou uma loja oficial dentro do Mercado Livre no México e começou a testar uma plataforma própria de distribuição direta no Brasil, acendendo um sinal de alerta entre investidores sobre a sustentabilidade das margens do varejo de saúde de médio prazo.

“Sob a parceria, o MELI oferece suporte logístico por meio do Mercado Envios e de seus centros de distribuição, enquanto a entrega de última milha será realizada por operadores de transporte farmacêutico licenciados”, diz a equipe de análise da XP Investimentos, em relatório.

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O movimento transforma o próprio laboratório em um canal digital de atendimento na linha de frente de um ecossistema de marketplace, levantando dúvidas sobre como esse novo formato de distribuição pode chacoalhar o mercado nacional.

Ana Paula Tozzi, especialista em varejo e CEO da AGR Consultores, diz que apesar da dinâmica ficar diferente, não elimina completamente o intermediário. “Ele muda o tipo de intermediação. A indústria passa a se aproximar mais do consumidor final, ganha controle sobre marca, dados, preço e experiência, mas ainda precisa lidar com regulação, prescrição, logística, rastreabilidade e responsabilidade sanitária”, disse, em entrevista ao InfoMoney.

Ela afirma que no caso da Novo Nordisk no Mercado Livre do México, a nova opção é sustentável para algumas categorias farmacêuticas, especificamente para remédios de alto valor e demanda, “mas dificilmente substitui o papel amplo das farmácias. A farmácia ainda tem capilaridade, conveniência, orientação, sortimento e relação recorrente com o consumidor”.

Regulação

A aplicação imediata desse formato de venda direta por marketplaces no mercado brasileiro esbarra numa barreira regulatória rígida. A legislação local impõe travas e exige que o comércio eletrônico de medicamentos esteja obrigatoriamente atrelado a uma drogaria física aberta ao público e devidamente registrada.

“A regulação atual efetivamente exige que nem marketplaces nem fabricantes atuem como vendedores de medicamentos com prescrição, vemos impacto limitado no curto prazo”, explicam os analistas da XP Investimentos.

Porém, a indústria farmacêutica tem encontrado brechas legais para estruturar suas próprias operações de venda direta no país. 

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Em entrevista ao InfoMoney, a Novo Nordisk afirma que escolheu o mercado brasileiro como uma espécie de campo de testes para o NovoCare Farmácia, um canal digital próprio voltado ao portfólio de semaglutida (Ozempic, Wegovy e Rybelsus). O sistema valida as receitas de forma digital e se conecta diretamente a programas de suporte ao paciente.

A operação contou com restrições regulatórias ao terceirizar o faturamento e a entrega para uma distribuidora parceira regulamentada.

Ana Paula ressalta que o peso regulatório brasileiro é grande, por conta da sua complexidade e restrições. A categoria de medicamentos possui muitas exigências, especialmente quando se trata de retenção de receita, controle sanitário e de prazo de validade, responsabilidade técnica, armazenamento, transporte e rastreabilidade.

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Porém, ela acredita que o avanço digital pode pressionar o modelo mais tradicional. “A tecnologia não elimina a regulação, mas força o setor a encontrar novos formatos regulados de operação”, disse.

Mercado de ações

Após a notícia da abertura da loja oficial da Novo Nordisk no Mercado Livre abalou empresas listadas na bolsa brasileira. No fechamento da última terça-feira, a RD Saúde (RADL3) e a Pague Menos (PGMN3) encerraram o dia com quedas de 2,04% (R$ 16,81) e 2,17% (R$ 3,61), respectivamente.

Na avaliação de analistas do JPMorgan, essa realização de curto prazo foi uma reação desproporcional dos investidores. Segundo o relatório do banco, o temor “fantasma” é um erro de avaliação, pois há diversas diferenças entre o mercado mexicano e o brasileiro. Os analistas apontam, inclusive, que seria benéfico comprar as ações da RD Saúde em baixa.

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A especialista em varejo afirma que o risco para as companhias abertas existe, ele só precisa ser dimensionado. “Medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro têm tíquete alto e geram fluxo importante, então uma eventual migração relevante dessas vendas para canais diretos poderia pressionar receita e margem das grandes drogarias”, afirma.

Porém, ela não enxerga um risco estrutural para o setor no momento, por conta da força das farmacêuticas brasileiras. “O impacto seria maior se a indústria conseguisse combinar preço competitivo, entrega confiável, acesso facilitado e experiência superior ao consumidor. Aí, sim, poderia haver revisão de projeções para determinadas categorias de alto valor”, aponta.

Ainda assim, grandes casas de análise alertam que o perigo de médio prazo é real e ganhou credibilidade com o endosso de grandes indústrias farmacêuticas ao ecossistema digital.

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“A leitura mais relevante é que um player farmacêutico de primeira linha não está apenas aprofundando seu relacionamento com o MELI, mas efetivamente chancelando-o como um canal de vendas confiável”, diz o relatório do Itaú BBA. O documento pontua que essa chancela deve encorajar outras empresas do setor a trilharem o mesmo caminho.

Saiba mais:

Olhando para os efeitos das ações na Bolsa, o BBA ressalta que a RD Saúde é a empresa que merece maior atenção. Na visão dos analistas, embora os reflexos imediatos sejam limitados para todas as redes de farmácias listadas em bolsa, a RD apresenta a maior sobreposição direta com a área onde a expansão do MELI provavelmente começará, considerando a concentração do projeto-piloto em São Paulo e a combinação de densidade populacional e demanda da cidade.

Para o MELI, o segmento farmacêutico é relevante para o ecossistema, mas não chega a ser transformacional para o seu GMV (Volume Bruto de Mercadorias). Para as farmácias brasileiras, no entanto, o aval da Novo Nordisk torna mais crível o risco competitivo a médio prazo, ainda que o cronograma e a magnitude desse impacto permaneçam incertos.

Varejo de saúde

De acordo com os analistas do Itaú BBA, o tamanho do mercado de medicamentos para a obesidade e diabetes justifica o forte apetite dos canais digitais e a preocupação sobre as redes varejistas. 

O segmento de combate à obesidade movimenta cifras bilionárias e o controle desse fluxo financeiro dita a rentabilidade do setor. 

“Nosso trabalho mais recente projeta o mercado de GLP-1 do Brasil em R$ 61 bilhões até 2030, com o canal formal monitorado atingindo R$ 35 bilhões, ou 57% do total”, aponta a equipe de análise do Itaú BBA.

As redes de farmácias tradicionais são as maiores interessadas em reter esses clientes de alto tíquete em suas lojas físicas. Dados internos da Pague Menos revelados pelo banco mostram o poder de engajamento dessa categoria: pacientes que utilizam canais de emagrecimento geram uma receita nove vezes maior do que a média dos consumidores comuns e visitam as unidades com uma frequência 50% superior.

Ana Paula destaca que o canal físico farmacêutico segue muito forte. “As grandes redes de drogarias têm presença nacional, escala, confiança e uma relação muito próxima com o consumidor (com programas de relacionamento robustos e coerentes)”, disse. “Além disso, a compra de medicamento muitas vezes é imediata, a pessoa quer resolver uma dor, uma febre, uma receita, uma necessidade do dia-a-dia”.

A especialista reforça que as vendas digitais e a venda direta vão crescer, mas sem substituições. “Para medicamentos de uso contínuo e alto valor, o digital pode ganhar força sim. Para compra emergencial, orientação e conveniência de bairro, a farmácia física continua muito relevante”, explica.

Plataformas digitais alternativas, como o iFood (que já detém cerca de 25% do tamanho do braço digital da RD Saúde), mostram que o hábito de consumo está mudando rapidamente. 

Mesmo que as farmácias físicas mantenham o domínio absoluto no atendimento de urgências, a venda programada e recorrente de medicamentos de alto custo caminha para um cenário de acirrada disputa digital.


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