Resumo
- Mais de 50 toneladas de livros japoneses foram exportadas para os Estados Unidos no último ano, segundo a emissora japonesa NTV.
- Os compradores buscam obras especializadas de filosofia, história, medicina, direito, política e cultura japonesa.
- A suspeita é que pelo menos parte desses livros seja destinada à digitalização para treinamento de sistemas de IA.
Sebos japoneses estão recebendo pedidos que fogem bastante do padrão. Desde o mês passado, algumas lojas passaram a vender centenas de livros por dia, enquanto outras registraram períodos em que as vendas chegaram a ser cinco vezes maiores que o normal. A suspeita é de que parte dessas encomendas seja destinada à digitalização para treinamento de sistemas de IA, seguida pela destruição dos exemplares.
São cerca de 50 toneladas de livros japoneses enviadas aos Estados Unidos desde o ano passado, segundo a emissora japonesa NTV. O volume não é a única coisa incomum: os compradores fogem dos títulos mais populares e encomendam obras de filosofia, história, medicina, direito, política e cultura japonesa. Há também pedidos por livros sobre o período Edo e por publicações políticas de décadas atrás.
A NTV encontrou centenas de pedidos feitos por contas diferentes, mas com o mesmo endereço em um centro logístico na cidade de Okayama. De lá, as obras seguiam para os destinos finais. A empresa responsável pelo centro não informou à imprensa japonesa quem estava por trás das compras.
Empresas de IA usam livros para treinar LLMs
A suspeita é que pelo menos parte dessas compras esteja relacionada ao treinamento de sistemas de inteligência artificial. Empresas do setor já compram livros em grandes quantidades para digitalizar o conteúdo e usá-lo no treinamento de modelos de linguagem (LLMs).
Na maioria dos casos, os exemplares são desmontados, as páginas passam por scanners e o texto é convertido em arquivos digitais. Depois, os livros físicos podem ser descartados.
Essa prática ganhou atenção nos EUA durante o processo envolvendo a Anthropic. Documentos do caso revelaram que a empresa criou uma operação para comprar milhões de livros físicos, digitalizar o conteúdo e destruir os exemplares depois. O objetivo era formar um acervo digital para o desenvolvimento do Claude. A empresa foi condenada a pagar US$ 1,5 bilhão (cerca de R$ 7,6 bilhões) por direitos autorais.
Em outro caso, mais recente, o portal 404 Media rastreou um livro raro que havia sido vendido em um lote de mil exemplares. O material chegou a uma instalação da Amazon em Las Vegas que, segundo o site, era utilizada para digitalizar e destruir livros em larga escala.
A operação seria conduzida pela VGT3, empresa instalada no complexo logístico da varejista para converter obras físicas em texto digital antes de descartá-las. A Amazon confirmou apenas que compra livros por canais comerciais para “desenvolver e aprimorar os produtos e serviços que os clientes utilizam”, sem detalhar o uso do material. Mas o logotipo da unidade parece fazer referência ao processo:
Japão vende livros por tonelada; compra pode abastecer IAs nos EUA


