E se Michael Jackson decidisse regravar o álbum Thriller? Como seria se Tolkien quisesse reescrever a trilogia O Senhor dos Anéis ou se Francis Ford Coppola resolvesse filmar uma nova versão de O Poderoso Chefão? É esse tipo de pergunta que o remake de The Legend of Zelda: Ocarina of Time tenta responder.
O jogo mais importante do século XX é o cartucho de The Legend of Zelda: Ocarina of Time, lançado em 1998 para Nintendo 64. É claro que gosto pessoal é subjetivo e cada pessoa tem seu favorito, mas é difícil contestar a importância da obra criada pela Nintendo para a história dos videogames.
Ocarina consolidou de forma magistral a transição dos jogos para os gráficos tridimensionais. Reuniu o melhor que antigos títulos em 2D tinham a oferecer em um mundo livre para explorar, apresentou conceitos de jogabilidade que perduram até hoje e embrulhou tudo isso em uma narrativa épica, doce e envolvente.
Este remake luxuoso, lançado exclusivamente para Nintendo Switch 2, não pretende mudar essa fórmula nem ampliar a aventura. Sua missão é outra: reafirmar a posição de vanguarda de Ocarina. É uma produção bonita e atenciosa, que faz jus ao status lendário conquistado pelo original ao longo das últimas décadas. Melhor ainda, abraça de vez o público brasileiro: é o primeiro Zelda com legendas e dublagem em português.

Em termos práticos, o lançamento também ajuda a preparar o terreno para o filme live-action de The Legend of Zelda, previsto para abril de 2027. Com as animações estreladas por Super Mario, a Nintendo parece ter finalmente abraçado o potencial comercial de uma estratégia multimídia. Os filmes ajudam a promover jogos, produtos licenciados e até visitas aos parques temáticos nos Estados Unidos e no Japão. Funcionou com o herói bigodudo e sua turma e parece que agora chegou a vez de Link e da princesa Zelda.
O remake de Ocarina of Time entrega exatamente o que promete: uma recriação fiel do jogo de 1998, sem cortes ou adições que alterem radicalmente a história e a experiência original. É um conto sobre o herói escolhido para enfrentar o perigoso vilão Ganondorf, explorando um mundo de fantasia repleto de quebra-cabeças, segredos, itens mágicos e personagens excêntricos e cativantes.
A principal novidade está nos gráficos. A atualização transforma os antigos modelos poligonais do Nintendo 64 em uma apresentação de visual ultrarrealista. É uma releitura muito bem planejada, que não apenas moderniza a fábula digital, mas também imprime uma identidade artística própria.
Os personagens têm aparência inspirada em marionetes, como explicado pelos desenvolvedores da Nintendo antes do lançamento. A escolha ajuda a conferir um tom onírico e atemporal à aventura. Em contrapartida, roupas, equipamentos, cenários e criaturas apresentam um nível impressionante de realismo e detalhes. As texturas da água, da grama e dos escudos parecem quase tangíveis, como se fosse possível tocar e sentir os materiais que compõem Hyrule. É difícil imaginar uma releitura visualmente mais bonita do que esta.
Tudo isso vem acompanhado da trilha sonora original, preservada em sua essência, com baladas emocionantes e composições épicas. Ocarina deu uma roupagem mais elaborada a músicas marcantes da franquia e apresentou novos clássicos que ajudaram a consolidar a reputação musical de Zelda. No remake, esse legado continua brilhando.
A jogabilidade também recebeu uma série de pequenos ajustes para tornar a experiência mais fluida. Em comparação com o original, quase todos os movimentos são mais rápidos. Os golpes ganham breves efeitos de câmera lenta para transmitir mais impacto, enquanto os sensores de movimento dos controles podem ser usados para fazer ajustes finos na mira do arco-e-flecha e outros equipamentos. Até o pulo, antes automático, agora pode ser ativado de acordo com a preferência de quem joga, o que contribui para uma sensação maior de imersão na aventura.

Além das melhorias técnicas e visuais, o remake tem um significado especial para os fãs brasileiros por apresentar localização completa em nosso idioma. O Ocarina of Time original chegou oficialmente ao Brasil, mas sem tradução, assim como os demais Zeldas lançados antes dele e muitos dos que vieram depois. Foi apenas em 2024 que Echoes of Wisdom se tornou o primeiro título da franquia com localização oficial em português, enquanto em 2025 os emblemáticos Breath of the Wild e Tears of the Kingdom também receberam atualizações gratuitas com legendas em PT-BR.
O remake de Ocarina vai além e apresenta dublagem em um ‘padrão Disney de qualidade’, inclusive com vozes familiares de desenhos animados clássicos, como Mauro Ramos, conhecido por interpretar Pumba em O Rei Leão. O elenco reúne outros nomes recorrentes em filmes e videogames, como Bianca Lua, Fábio Azevedo e Rebeca Zadra.
Quem já jogou Ocarina provavelmente não vai sentir o mesmo impacto da tradução, mas é emocionante acompanhar essa aventura em português e imaginar como ela pode se tornar a porta de entrada para uma nova geração de fãs. Agora, crianças e adultos podem conhecer o universo mágico de Hyrule em sua própria língua, sem a barreira de um idioma estrangeiro. É uma conquista do insistente e apaixonado público brasileiro, concretizada em uma nova versão de um dos jogos mais importantes da história.
Qual é, afinal, o resultado desse ousado projeto da Nintendo de repaginar uma de suas obras mais importantes? Uma atualização gráfica considerável, uma jogabilidade mais ágil e um caloroso e tão aguardado abraço aos fãs brasileiros. E nada mais… pois não precisa!
O remake de The Legend of Zelda: Ocarina of Time é como uma edição especial, remasterizada, do seu disco favorito ou uma versão de capa dura daquele livro que marcou sua vida. A embalagem é nova e mais brilhante, mas o coração da obra continua tão único e inovador que a torna atemporal.
Fonte: Abril


