Acostumado a levar o próprio corpo ao limite, Sylvester Stallone encarou uma exaustão física incomparável após passar três dias e meio escrevendo, a mão, sem parar, o roteiro do filme Rocky. Para amenizar as dores no punho esquerdo — ele é canhoto —, mergulhava a mão em um balde com gelo ou pisava sobre os próprios dedos para alongá-los na marra antes de voltar a pegar a caneta. Como se psicografasse anseios, dores e rejeições acumulados até ali, quando se aproximava dos 30 anos de idade, despejou suas emoções nas páginas e precisou da ajuda da então esposa, que “traduziu” sua caligrafia para datilografar um roteiro legível. “Desabei num sono que mais parecia um coma”, escreve Stallone sobre o fim do processo no livro de memórias Os Degraus, que acaba de chegar ao Brasil.

Na obra, o veterano, hoje aos 80 anos, entrelaça episódios da vida pessoal e profissional, intrinsecamente ligados ao personagem boxeador. O lançamento acompanha as celebrações dos cinquenta anos de Rocky, que estreou em 21 de novembro de 1976 e transformou Stallone, então um desconhecido, em astro de Hollywood. Produzido por cerca de 1 milhão de dólares, o filme arrecadou impressionantes 225 milhões nas bilheterias mundiais e conquistou três estatuetas do Oscar, incluindo as de melhor filme e melhor direção, para John G. Avildsen, além de render a Stallone indicações como ator e roteirista.
A popularidade se estende até os dias de hoje: de lá para cá, Rocky teve cinco continuações, lançadas entre 1979 e 2006, e deu origem a uma nova trilogia, Creed, iniciada em 2015. No total, a franquia arrecadou 1,9 bilhão de dólares. A partir do dia 19, um filme chega aos cinemas para aumentar essa cifra, ao menos de forma simbólica. Eu Sou o Rocky adapta para as telas a história da criação do personagem e os percalços enfrentados por Stallone, interpretado pelo jovem e notável Anthony Ippolito.

Livro e filme são produções independentes, mas complementares. Enquanto Eu Sou o Rocky dramatiza a história já conhecida da virada do astro — produção que não conta com o envolvimento do Stallone —, a biografia traz o relato em primeira pessoa do ator, que fez dos limões que a vida lhe atirou uma torta para lá de saborosa. O primeiro revés o atingiu quando ele ainda saía da barriga da mãe. No parto, o médico usou um fórceps de forma incorreta para puxá-lo, lesionando um nervo e paralisando permanentemente parte de seu rosto, além de causar dificuldades na fala. Em casa, foi criado de forma bruta, por uma mãe que o rejeitava e um pai violento. Era constantemente expulso das escolas por seu comportamento errático. Na juventude, chegou a ser preso após uma briga no local de trabalho. O desejo de ser ator, ele explica, em uma sacada psicanalítica, nasceu da necessidade de provar seu valor e receber de estranhos a aprovação e o amor que não teve em casa. A escolha foi arriscadíssima e difícil. “Ser ator é uma loteria. A chance de fracasso é de 98%”, escreve ele.

Stallone enfrentou de tudo um pouco nesse caminho. Sem grana, dormiu na rua; quase foi assediado por um diretor de elenco; ouviu diversos “nãos” e julgamentos sobre sua aparência; e chegou a fazer um filme erótico para pagar as contas. Nesse processo, trabalhou como lanterninha de cinema, onde estudava minuciosamente os filmes exibidos para aprender a escrever roteiros. Desenvolveu vários até chegar a Rocky, sobre um boxeador azarão e sofrido, com problemas paternos, mas salvo por um romance arrebatador e pela chance de subir no ringue contra um campeão renomado. O resto é história.

Cinco décadas mais tarde, Stallone é um nome que dispensa apresentações. Em 1982, deu vida a outro personagem emblemático, o veterano de guerra Rambo, que ajudou a consolidar o cinema de ação tomado por grandalhões imbatíveis, exalando músculos e testosterona. Stallone até demonstrou versatilidade dramática ao longo da carreira, mas foi no tiro, soco e bomba que triunfou: nos anos 2010, reuniu veteranos de Hollywood na franquia Os Mercenários. Mais recentemente, encontrou novo fôlego na televisão com Tulsa King, série da Paramount+ em que interpreta um mafioso recém-saído da prisão. Na contramão da experiência paterna sofrida, tornou-se um paizão que topa tudo pelas filhas, até mesmo estrelar com elas o reality show A Família Stallone. A saga do campeão é repleta de surpresas.
Publicado em VEJA de 6 de novembro de 2026, edição nº 3020
Fonte: Abril


