Era improvável, mas não impossível: na metade de um mandato empenhado em imprimir nos corações e mentes dos Estados Unidos e do mundo a ideia de que nada nem ninguém seria capaz de frear seus desígnios e suas vontades, o presidente americano Donald Trump foi à lona, empurrado por um fracasso eleitoral de proporções fabulosas. Todas as pesquisas apontavam para uma vitória do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato para Câmara, Senado e cargos estaduais e municipais, as midterms, que sempre punem o mandatário em exercício, alvo fácil de todo tipo de insatisfação popular. Mas a lavada de 3 de novembro ultrapassou todas as expectativas, varrendo fortalezas conservadoras de uma ponta a outra do país e arrancando dos republicanos o controle, com vantagem, das duas casas legislativas, algo que aconteceu apenas três vezes no último século.
Tratada como um plebiscito sobre seu governo e, em última instância, sobre sua pessoa, a votação fez transbordar a rejeição popular ao presidente e a seu estilo de governar. No cômputo geral, a oposição ganhou por mais ou menos 13 pontos percentuais, com comparecimento recorde, e colocou o presidente na mais espinhosa encruzilhada de seus dez anos de movimentada carreira política. Privado da chancela legislativa automática a suas medidas e do apoio dos eleitores que o recolocaram em triunfo na Casa Branca, ele vê seu poder real encolher e ingressa na segunda metade do mandato sob o risco iminente de paralisia e isolamento.
Ao longo das primárias para a escolha de candidatos e da campanha eleitoral, Trump, eterno showman, tomou para si os holofotes. Expurgou republicanos moderados que o desafiaram e impôs nomes polêmicos nas cédulas, considerados fracos pelo próprio partido — no início do semestre, gabava-se de haver emplacado todos, só para ver a maioria perder no dia 3. Embarcou em uma jornada pessoal de comícios país afora, na qual exortou os simpatizantes a “fazer de conta que é o meu nome na cédula”, mantra que repetiu ao menos 47 vezes na reta final da corrida. Com a aprovação na faixa dos 30%, a mais baixa nesta altura do governo desde que Harry Truman ocupou a Casa Branca, há oitenta anos (e se viu engolido por uma dramática crise econômica e política no imediato pós-guerra), Trump foi, sim, atendido — só que não como imaginava. “Ele transformou a eleição em um referendo sobre si mesmo. A derrota não foi resultado de um desgaste natural dos republicanos. Foi, isto sim, o atestado de falência de seu mandato”, diz Jonathan Hanson, professor de políticas públicas da Universidade de Michigan.

Não que o Partido Democrata esteja com essa bola toda. Depois do derretimento de Joe Biden e do fracasso de Kamala Harris em 2024, a legenda é vista com grande desconfiança por seus próprios eleitores. O grande motor da vitória das midterms foi a rejeição a Trump, seguida, a distância, pela aprovação do discurso dos progressistas, o bloco rebelde dentro da oposição. Mas quem saiu ganhando, no final, foram os democratas como um todo. O resultado projetado na quinta-feira 5, quando a apuração ainda não havia acabado, mostra que o partido conquistou mais de 260 cadeiras na Câmara, ultrapassando confortavelmente as 218 necessárias para comandar a casa. Também garantiu uma maioria de ao menos 54 assentos no Senado de 100 cadeiras, coroando o massacre eleitoral com sete viradas espetaculares.

A sigla acumulou no processo uma penca de resultados excepcionais. No Texas, bastião republicano, o deputado estadual evangélico James Talarico, 37 anos, que fez campanha com a Bíblia em punho, encerrou um jejum de quase quarenta anos sem senadores democratas ao derrotar Ken Paxton, um ex-procurador-geral do estado envolvido em escândalos abençoado por Trump — e, de quebra, deu o maior prejuízo ao bilionário Elon Musk, que havia investido no estado, onde mora atualmente, mais de 200 milhões de dólares do meio bilhão que doou aos republicanos. Ainda no Texas, Gina Hinojosa, 52 anos, ganhou do poderoso Greg Abbott (aquele que despachava ônibus de imigrantes para Nova York e outras cidades) e se tornou a primeira governadora latina da história do estado e primeira democrata em 36 anos.
Seguindo na mesma toada, em Michigan, o médico Abdul El-Sayed, 42 anos, estrela da ala progressista, quebrou tabus ao ser o primeiro muçulmano eleito para o Senado, superando ataques islamofóbicos diários desferidos por Trump e seus aliados. Kansas fez do pastor metodista Adam Hamilton, 62 anos, o primeiro senador democrata do estado em 94 anos. A onda azul (a cor democrata) engolfou ainda governos em Nevada, Iowa, Ohio e Geórgia — ali, Keisha Lance Bottoms será a primeira governadora negra dos Estados Unidos. “Foi a eleição mais importante em muitos anos. Vamos acabar com a beligerância insustentável que Trump instalou na política”, disse a VEJA o comerciante Temi Ogun, 28 anos, em Miami. A seu lado, Melissa Jackson, 67 anos, vestida de azul dos pés à cabeça, celebrava o resultado. “As pessoas viram que a palavra do presidente não vale nada e começaram a repensar seus votos”, afirmou.

O diagnóstico da derrocada repousa sobre uma combinação explosiva de asfixia econômica e decepção política. A insatisfação com os preços, alimentada pelo tarifaço imposto às importações nos primeiros meses de governo, escalou com a impopular guerra contra o Irã, que fez a gasolina e o diesel dispararem quase 40% — baques que atingiram particularmente a população rural e os distritos conservadores no interior do país, trincheira trumpista que se julgava inviolável. As batidas truculentas do ICE provocaram uma debandada em massa do eleitorado latino, que ajudou a eleger Trump em 2024. O alto custo de vida, por seu lado, enfureceu os jovens, que se sentem traídos por ele e veem seu futuro ameaçado. “Trump prometeu defender o povo contra os poderosos, mas o eleitor concluiu que ele prioriza mesmo os próprios interesses”, diz o cientista político James Adams, da Universidade da Califórnia em Davis. A fortuna de sua família cresceu 5 bilhões de dólares durante o mandato, pondo combustível nas suspeitas de corrupção do governo — hoje, uma das maiores preocupações da população. “Votei no Trump achando que era um bom empresário, mas ele só olha para si mesmo. Vou ao mercado e está tudo caríssimo”, desabafa o aposentado porto-riquenho Rolando Martínez, 72 anos, em Miami há seis décadas.
Sem o controle do Capitólio, o presidente ingressa na penosa condição de “pato manco”, como são chamados os eleitos enfraquecidos em fim de mandato. Sob o comando dos democratas Hakeem Jeffries, na Câmara (outro primeiro: nunca houve um negro nessa posição), e Chuck Schumer, no Senado, a oposição passa a deter o controle dos orçamentos federais e das comissões com poder para intimar membros do governo a depor em audiências públicas e devassar as entranhas do Executivo — o espectro de investigações em pauta abrange os negócios obscuros da família do presidente, os gastos exorbitantes do Pentágono e as ligações dele com o criminoso sexual Jeffrey Epstein. Os senadores, em particular, poderão paralisar nomeações de ministros, juízes federais e para eventuais vagas na Suprema Corte. Sem falar que um processo de impeachment, o terceiro contra Trump, paira no ar. As duas casas prometem pôr em votação, logo nas primeiras semanas, uma avalanche de projetos anti-Trump. “Com a agenda barrada e a enxurrada de investigações, a Casa Branca ficará em permanente estado de defesa”, avalia o cientista político Don Haider-Markel, da Universidade do Kansas.

É tido como certo, porém, que Donald Trump não será um “pato manco” resignado. A fragorosa derrota tolheu as esperadas denúncias vazias de fraude, mas nas primeiras entrevistas e postagens ele se eximiu de responsabilidade, atribuindo a lavada à imprensa e aos maus candidatos (que ele mesmo escolheu), e nas redes sociais exibiu a imagem de um boné vermelho com a palavra “VETO”, sob a promessa de enterrar qualquer projeto vindo do Congresso democrata. “Vou virar o Senhor Veto. E depois de alguns provavelmente vamos chegar a acordos”, acredita. “Nada em seu histórico sugere aceitação da derrota. Encurralado, Trump sempre elevou o tom e partiu para o combate frontal”, diz Garret Martin, professor de ciência política da American University. Bloqueado no front doméstico, é quase inevitável que volte os olhos para a política externa, terreno em que o Executivo tem mais autonomia, em um movimento clássico de sobrevivência política: em 2006, ao perder o Congresso, George W. Bush ordenou uma escalada militar no Oriente Médio, e em 2010, castigado pelo movimento conservador Tea Party nas midterms, Barack Obama costurou acordos com Cuba e o Irã.
No caso de Trump, que já provocou inúmeras convulsões geopolíticas, o radar se volta para o Oriente Médio, a guerra entre Rússia e Ucrânia (um encontro de representantes dos dois países e dos Estados Unidos está marcado para os próximos dias) e, em certa medida, a América Latina. “É provável que ele tente transformar a política externa na grande marca de seus anos finais, a fim de deixar um legado próprio”, acredita Nadia Brown, professora de ciência política na Universidade Georgetown. Em relação ao Brasil, alvo frequente na cruzada comercial de Trump, a nova conjuntura em Washington gera uma mistura de apreensão e cálculo pragmático. O Congresso democrata promete questionar o uso abusivo de tarifas protecionistas, mas tem pouca força para revogar medidas impostas pela Casa Branca. Não está claro se Trump recuará do tarifaço para estancar a sangria inflacionária, que foi um dos motivos da derrota eleitoral — e pode piorar depois que o governo Lula iniciou os trâmites da Lei da Reciprocidade brasileira —, ou se dobrará a aposta no protecionismo como retórica de firmeza nacionalista. O suporte à família Bolsonaro é outra questão em aberto. “O cenário é de incerteza otimista para o Brasil, que fica agora em uma posição melhor para negociar”, analisa Rangel Ramos, cientista político da PUCPR.
Internamente, a vitória democrata redesenhou o tabuleiro político de Washington, mas a deletéria polarização segue viva e operante. Em Los Angeles, VEJA observou voluntários se organizarem para proteger eleitores do patrulhamento do ICE em bairros de imigrantes (“Precisamos defender nossa comunidade”, disse Abraham Lugo Bello, líder da organização). Em Miami, o engenheiro Kevin Michaels, 28 anos, fazia a defesa de Trump: “Existe uma narrativa democrata para culpá-lo por tudo”, criticou. Mesmo enfraquecido, o presidente ainda conserva dinheiro, influência e uma legião de seguidores suficientes para continuar dando as cartas no Partido Republicano e interferir na escolha de seu sucessor em 2028. “As raízes ideológicas do trumpismo são profundas e vão além da popularidade do presidente”, alerta Chris Koliba, do think tank National Academy of Public Administration. Na disputa pela herança política, os nomes fortes são o do vice-presidente JD Vance — que no dia seguinte às eleições atribuiu a derrota, sem meias-palavras, à guerra com o Irã — e o do secretário de Estado Marco Rubio.

Do outro lado, os democratas têm motivos de sobra para comemorar — e várias contas a acertar. A ala progressista, avessa a conchavos e crítica estridente dos antigos caciques, fez avanços importantes nas midterms, com ao menos cinco novos assentos na Câmara, três no Senado e quarenta em parlamentos estaduais. “Disseram que o establishment era forte demais e que não era hora de mudar. Mostramos que um movimento do povo, pelo povo e para o povo é que vence”, celebrou El-Sayed em Michigan, escancarando o dilema existencial que perpassa a legenda, vista com enorme reticência pela maioria dos americanos. “A onda azul foi impulsionada muito mais pelo desgaste econômico do governo do que por uma conversão em massa ao programa democrata”, alerta Ross Baker, cientista político da Universidade Rutgers. Trump perdeu, é verdade. Mas os democratas ainda terão de provar que mereceram ganhar.
Publicado em VEJA de 6 de novembro de 2026, edição nº 3020
Fonte: Abril


