A política israelense é de dar nó na cabeça. Por exemplo: o impasse atual, em que nem o governo nem o principal bloco de oposição têm condições de formar uma maioria parlamentar, pode ser quebrado por um árabe israelense, um dentista de 52 anos, Mansour Abbas, líder do partido Raam, em geral classificado como moderadamente islamista.
Uma das muitas questões que se abre com essa possibilidade é se todos os integrantes do bloco de oposição aceitarão essa aliança, politicamente complexa por causa da desconfiança generalizada de que Abbas, assim como a população palestina que ele representa, na verdade odeia Israel e, se tivesse a chance, aderiria em massa a um futuro Estado palestino – futuro bem lá na frente, porque as possibilidades a médio prazo são nulas.
Só para lembrar: os dois milhões de árabes com cidadania israelense – 20% da população total do país – são diferentes dos irmãos palestinos que vivem nos territórios ocupados e em Gaza (para complicar, o líder do Raam tem o mesmo sobrenome que Mahmoud Abbas, o presidente da Autoridade Palestina, entidade governamental com autonomia relativa na Cisjordânia; os dois não são parentes).
O Abbas israelense reconhece Israel e condena categoricamente o terrorismo. Só não chegou ao ponto de repudiar o Hamas, que desfruta de um prestígio razoável entre seu eleitorado. “Me deem espaço para ser uma ponte”, apelou ele, usando uma fórmula sempre repetida para se apresentar como mediador pragmático, um político com que se pode negociar. Abbas acrescentou um detalhe: o “espaço” que pede, ou seja, não repudiar o Hamas, também serve “para me proteger e à minha família”. Não deixa de ter razão
O outro partido árabe, o Lista Unida, de tendência moderadamente secular (incluindo uma facção ligada aos antigos comunistas), anunciou que vai apoiar o nome do líder da oposição, Gadi Eisenkot. O bloco oposicionista teria assim o apoio ou a neutralidade de 67 parlamentares, o suficiente para que, no domingo, Eisenkot receba a incumbência de formar um governo.
O RECADO DO VICE
A eleição em Israel aconteceu num momento complexo ao criar o impasse atual. O apoio dos partidos árabes – os israelenses judeus evitam o uso da palavra palestinos – pode levar finalmente à saída de Benjamin Netanyahu da chefia do governo.
Para Israel, isso poderia até ser positivo à luz da mudança da opinião pública americana. Tanto à esquerda quanto à direita, existe nos Estados Unidos a ideia de que Netanyahu induziu Donald Trump a bombardear o Irã, desencadeando um processo perverso em que os americanos pagaram o ônus, via aumento dos preços dos combustíveis, sem o bônus de uma mudança de regime e a garantia de que o programa nuclear iraniano estaria desarticulado.
O vice-presidente JD Vance representa a tendência da direita nacionalista americana e, como quer disputar a Casa Branca, está correndo atrás do prejuízo. Ao analisar o recado das urnas na eleição de terça-feira, atribuiu a acachapante derrota republicana ao repúdio à guerra contra o Irã e, também, a um desejo de mudança nas relações com Israel. Nunca o país havia sofrido uma condenação desse nível de um político americano em cargo tão alto.
Poucas horas antes da eleição, Trump anunciou que a ajuda militar a Israel seria encerrada no fim do ano. É uma quantia relativamente baixa, de 4 bilhões de dólares, mas sinaliza que ele também está lendo o recado da opinião pública.
Para Israel, manter o apoio americano é uma questão de vida ou morte. Irá um dentista árabe cuja esposa usa o traje muçulmano conservador, cobrindo dos cabelos aos pés, criar as condições para que um nome menos estigmatizado do que Netanyahu lidere o país e tente recompor a aliança de importância existencial? Pode ser uma ironia histórica – ou uma manobra que, no fim, não dê em nada. Ele já integrou um governo de curta duração e o mesmo ciclo pode se repetir.
Fonte: Abril


