O apetite das redes estrangeiras de fast-food pelo Brasil está longe de se esgotar. Depois de décadas de disputa entre gigantes americanos como McDonald’s e Burger King, uma nova leva de marcas prepara sua entrada no país ou acelera a abertura de lojas. Há espaço no cardápio para hambúrgueres, pizzas, sanduíches, donuts e sorvetes, com investimentos que miram centenas de endereços. O movimento ocorre, porém, enquanto empresas que ajudaram a popularizar a alimentação rápida entre os brasileiros enfrentam dificuldades financeiras. Em agosto deste ano, o Grupo Gennius, dono de Habib’s e Ragazzo, entrou com pedido de recuperação judicial, com dívidas de aproximadamente 265 milhões de reais. O contraste revela um mercado que continua a oferecer oportunidades, mas cobra cada vez mais eficiência, capacidade de adaptação e atenção às mudanças no consumo.

Uma das estreias mais aguardadas é a da rede Shake Shack. Com mais de 700 lojas no mundo, a empresa americana chegará ao Brasil em 2027, em parceria com a Bold Hospitality Company, responsável também pela operação do Outback. A companhia, que nasceu em 2001 como um carrinho de cachorro-quente em Nova York, planeja abrir quarenta unidades até 2036, começando por São Paulo. Segundo Michael Kark, presidente de licenciamento global, o Brasil estava entre os destinos mais pedidos pelos consumidores. “A paixão do país pela boa gastronomia, por uma cultura vibrante e por uma hospitalidade genuína faz dele uma escolha natural para o Shake Shack”, afirma Kark.
O interesse pelo mercado brasileiro alimenta negociações entre empresas do setor. Um levantamento da consultoria Acorn Advisory identificou trinta operações envolvendo fusões, aquisições, mudanças de controle e parcerias por aqui desde o fim de 2016 até outubro de 2026. Para Vitor Lourencini, vice-presidente da Acorn, a expectativa de queda dos juros e o espaço para novas lojas ajudam a explicar o interesse estrangeiro. De fato, a presença de grandes marcas internacionais ainda é proporcionalmente pequena no país: há uma unidade do McDonald’s para cada 170 000 habitantes, enquanto nos Estados Unidos a relação é de uma para 22 000. “As grandes redes estão vendo isso como uma oportunidade e acabam enxergando o potencial de adensamento do fast-food por aqui”, diz Lourencini.

Para conquistar o consumidor brasileiro, conhecer o terreno é tão importante quanto ter uma marca famosa. A busca de parceiros permite às redes aproveitar a experiência de quem já lida com as particularidades tributárias e operacionais do país. Foi o caminho escolhido pela Krispy Kreme, rede americana especializada em donuts, que se associou à AmPm, rede de lojas de conveniência da Ipiranga, distribuidora de combustíveis. De acordo com Lourencini, o modelo facilita a expansão e reduz os riscos da estreia. A estratégia não é, contudo, garantia de permanência. A americana Wendy’s chegou ao Brasil em 2016 e encerrou suas operações alguns anos depois. A Dunkin’ Donuts deixou o país em 2005, após duas décadas de atuação. Ambas mostraram que o prestígio internacional, por si só, não sustenta o negócio.

Fundada em 1937 nos Estados Unidos, a Krispy Kreme desembarcou no Brasil em 2025, atraída pelo tamanho da população e pelo interesse por produtos de confeitaria. Parte do público já conhecia seus donuts de viagens ao exterior. Para conquistar os demais, a empresa acrescentou sabores familiares ao paladar brasileiro: doce de leite, inspirado nos churros, e açúcar com canela, numa referência ao bolinho de chuva. “Cada país tem a sua realidade e existem diferentes formas de se aproximar do consumidor”, diz João Marçola, CEO da Krispy Kreme Brasil. Desde a inauguração da primeira loja, na Avenida Juscelino Kubitschek, em São Paulo, a rede passou a vender também por drive-thru, delivery, unidades em shopping centers e quiosques. Hoje, soma onze pontos de venda e pretende reforçar a operação paulista antes de avançar para outras regiões.
A disposição dos recém-chegados para ajustar produtos e formatos ajuda a entender por que algumas redes crescem enquanto outras perdem espaço. No caso de empresas tradicionais, como Habib’s e Ragazzo, o tamanho da operação e o reconhecimento da marca já não bastam para assegurar competitividade. Para Gabriel Uarian, analista-chefe da assessoria de investimentos Cultura Capital, parte das dificuldades está em acompanhar os novos hábitos de consumo. “Preço continua importante, mas sozinho não garante fidelidade. A localização ainda importa, porém perde relevância diante do delivery”, afirma. Cardápios desatualizados, custos operacionais elevados e dificuldade para renovar os motivos que levam o cliente a escolher uma rede, segundo ele, abrem caminho para concorrentes mais ágeis.

A Firehouse Subs aposta justamente em uma fatia que considera pouco explorada: consumidores que buscam a conveniência do fast-food, mas valorizam produtos de maior qualidade. Fundada nos Estados Unidos em 1994, a rede inaugurou 21 restaurantes em shopping centers da região metropolitana de São Paulo em pouco mais de um ano. A meta é chegar a 500 unidades em uma década. Em 2027, estão previstas a expansão para outras regiões e a abertura de lojas de rua. “O mercado de alimentação brasileiro ainda é muito pulverizado, com uma presença pequena de grandes redes em certas categorias”, afirma Iuri Miranda, CEO da operação brasileira. “Enxergamos que essas empresas devem ganhar cada vez mais espaço, como já aconteceu no segmento de hambúrgueres.”
No mercado de pizzas, a americana Papa Johns prepara sua entrada para disputar clientes com redes como Pizza Hut e Domino’s. Com mais de 5 500 restaurantes em cerca de cinquenta países e territórios, a companhia procura um parceiro brasileiro com capacidade financeira e experiência no setor. São Paulo será o ponto de partida, mas ainda não há data de inauguração nem metas de expansão. O tamanho do mercado e a consolidação do delivery alimentam o interesse. Segundo John Matter, diretor global de desenvolvimento da Papa Johns, o país já estava no radar, mas encontrar o operador certo é decisivo. “Entrar em um novo mercado vai além de identificar uma oportunidade”, diz. “É necessário encontrar o parceiro local adequado e estabelecer bases operacionais para construir um negócio sustentável no longo prazo.” A rede pretende conquistar espaço com ingredientes premium, sabor e conveniência digital.

A chinesa Mixue, por sua vez, almeja atrair o consumidor brasileiro com sorvetes, chás e bebidas a preços acessíveis. Criada em 1997 em Zhengzhou, na China, a companhia chegou a quase 60 000 unidades pelo mundo com uma operação baseada em produtos de baixo custo e franquias. Em 2026, abriu quatro lojas em São Paulo e iniciou os preparativos para desembarcar no Rio de Janeiro, onde avalia pontos comerciais e potenciais parceiros. A expansão combina unidades próprias e franqueadas. Segundo Mei Shu, diretora de marketing da Mixue, o tamanho do mercado brasileiro, a população jovem e a receptividade a marcas e sabores asiáticos pesaram na decisão. Para se aproximar do gosto local, a rede prepara lançamentos sazonais e produtos à base de chocolate e frutas tropicais, sem abandonar os sorvetes e bebidas que asseguraram seu crescimento internacional. Para quem tem fome de crescer, ainda há muito espaço à mesa no Brasil.
Publicado em VEJA, outubro de 2026, edição VEJA Negócios nº 31
Fonte: Abril

