Dá dor no coração andar por ruas de Paris preferidas pelas constantes ondas de manifestações e saques. Os feios tapumes de compensado protegem as vitrines. Parecem obras em construção, não pontos comerciais. “Não sobrou mais nada. Foi tudo roubado”, diz um aviso escrito a mão na porta de um deles. Os tapumes, cada vez menos provisórios, encaixotam as esperanças que o governo de Emmanuel Macron inspirou em tantos franceses quando foi eleito pela primeira vez, em 2017. Com Macron naufragou também o centro político, a proposta de manter, com certos ajustes, os generosos benefícios sociais e docemente afrouxar as amarras que engessam a economia. Não existe nada de doce na paisagem política atual, já inteiramente voltada para a eleição presidencial de abril próximo.
Com o centro, afundam as candidaturas de políticos moderados, especialmente a de Édouard Philippe, um ex-primeiro-ministro que conseguiu se desvencilhar de Macron e poderia ir ao segundo turno com Marine Le Pen, beneficiando-se da onda de todas as últimas eleições presidenciais (“Tudo menos um Le Pen na Presidência”). Não é impossível que, na verdade, o segundo turno seja disputado por Marine e Jean-Luc Mélenchon. Ao contrário da candidata, que fez uma limpeza no patrimônio ideológico de extrema direita que herdou do pai, Mélenchon manteve todos os princípios absorvidos na militância trotskista, inclusive a tática do conflito permanente. Está faturando entre os manifestantes, embevecidos pelo vício francês — fazer revolução cada vez que um grupo sai à rua pedindo algo tão banal como banheiros mais bem cuidados nas escolas do ensino médio.
“Pode alguém falar em controlar os meios de produção 37 anos depois da queda do Muro de Berlim?”
A rejeição ao centro também apareceu nas eleições brasileiras, com a guinada para a esquerda representada pelo tsunâmi assistencialista da campanha vitoriosa de Lula. Nos EUA, a novidade das eleições para o Congresso está com os parlamentares que se assumem socialistas, um espanto na pátria mundial do capitalismo, vencedora incruenta da Guerra Fria. Pode alguém falar em controlar os meios de produção 37 anos depois da queda do Muro de Berlim, quando os alemães orientais simplesmente votaram com os pés e se dirigiram à barreira, tornada indefensável diante da quantidade de gente que queria dar uma olhada no lado capitalista — e enterrar a funérea experiência socialista? Pois nessa Alemanha hoje unificada prospera uma extrema direita que é simultaneamente simpática a Putin e antipática ao liberalismo econômico. O atual primeiro-ministro, Friedrich Merz, democrata-cristão, é um dos exemplos de naufrágio do centro.
“O espírito da insurreição é um espírito radicalmente contrário à liberdade”, provocou famosamente um dos ideólogos do centro político, François Guizot, político influente da época do regime monarquista constitucional que vigorou na França entre 1830 e 1848, nascendo e morrendo nas barricadas. Guizot tinha motivos para ser um pilar da moderação: seu pai, ativo revolucionário, foi guilhotinado durante o Grande Terror. Por ser contra o voto universal, que via como exemplo da anarquia revolucionária, hoje seria considerado um reacionário, o que não muda a realidade: o legado da aristotélica virtude do meio, tal como o defendia, parece estar indo para o buraco.
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Publicado em VEJA de 6 de novembro de 2026, edição nº 3020
Fonte: Abril


