Como narrar um mundo sem linguagem? É o desafio que a escritora brasiliense Paulliny Tort enfrenta em Os Imortais, da editora Fósforo, um dos grandes livros de 2026, que acaba de ser adquirido para uma adaptação cinematográfica pelo produtor Rodrigo Teixeira, da RT Features. Na trama, um clã de neandertais, guiado por Homem, Mulher e Velha, encara uma ruptura quando uma menina sapiens passa a viver entre eles. Inventivo e provocador, o romance obriga o leitor a olhar para dentro e para trás, rumo aos primórdios da humanidade, das alianças, traições e afetos — e de suas conexões com o presente.
A narrativa é altamente sensorial; cheiros, texturas, temperaturas e sabores saltam da página, o que faz da transição para o audiovisual um belo desafio. Teixeira, que tem no currículo produções de filmes oscarizados como Me Chame pelo Seu Nome (2017) e Ainda Estou Aqui (2024), sabe disso. “O livro é altamente fílmico e, ao mesmo tempo, hiperdesafiador de adaptar.” A leitura, diz, “faz parecer que entramos numa máquina do tempo”. Não há datas para filmagens nem nomes no elenco, mas Teixeira, que costuma transitar entre o cinema nacional e internacional, adianta que o diretor não será brasileiro.
Lançado em março, o romance se tornou um inesperado best-seller — chegou à quinta reimpressão e levou os prêmios APCA e da Fundação Biblioteca Nacional. Antes de chegar aos cinemas, já cruza fronteiras. Os direitos de tradução foram negociados com editoras de sete mercados linguísticos, entre eles inglês, francês, espanhol, catalão, polonês e italiano. Na trama, os personagens atravessam territórios hostis em busca de sobrevivência. O encontro entre as duas espécies desperta medo, fascínio e violência, e a menina, que cresce achando-se parecida demais e diferente demais, vira a grande protagonista. Sem cair no cientificismo nem na fábula, Tort escreve uma epopeia e questiona por que fomos nós, e não outra espécie, que sobrevivemos.
As provas existentes indicam que os neandertais não viveram no Brasil, mas em toda a Eurásia. Isso não impede que nos identifiquemos com eles. Pesquisas genéticas mostram que humanos modernos carregam entre 1% e 4% de DNA neandertal (média de 2% a 2,5%, inclusive em brasileiros), fruto de cruzamentos ocorridos quando o Homo sapiens deixou a África. “É quase um acaso que a nossa espécie tenha prevalecido”, diz Paulliny, para quem o legado genético lembra que “o mundo não é só nosso”. Ao encarar esses ancestrais, o leitor faria bem em manter, como queria Nietzsche, “os olhos bem abertos para o que é humano, demasiado humano”.
Publicado em VEJA de 6 de novembro de 2026, edição nº 3020
Fonte: Abril


