Na mesma velocidade de seu bombástico forehand, o carioca João Fonseca passou neste sábado por mais uma barreira em sua curtíssima carreira de ascensão constante. Logo na terceira tentativa, superou a segunda rodada de Masters 1000 e novamente fez a ATP recordar Carlos Alcaraz, que também tinha 18 anos quando obteve a façanha, em 2021.
Aliás, já cabe aqui uma observação histórica. Fonseca acabou de marcar sua quarta vitória de nível Masters 1000 – teve uma em Madri e outra em Indian Wells – e com isso deixou para trás o ex-top 35 Jaime Oncins, que ganhou três em sua carreira de simples. João há havia batido os isolados triunfos de André Sá e Cássio Motta. Apenas outros oito brasileiros ganharam jogos de Masters, liderados é claro por Guga Kuerten e seus 109 triunfos. Atrás dele, estão Thomaz Bellucci (33), Fernando Meligeni (12), Flávio Saretta, Luiz Mattar, Thiago Monteiro e Thiago Wild (8) e Ricardo Mello (6).
Embora seja difícil fazer comparações, eu ousaria dizer que Fonseca fez hoje sua mais exuberante atuação como profissional. E aí considero vários atributos: a tranquilidade e firmeza com que começou a partida, a forma com que não deu qualquer oportunidade ao adversário de se recuperar das quebras sofridas e a escolha quase sempre precisa dos golpes de ataque. Estamos falando de um oponente nível top 20, o canhoto Ugo Humbert, um ex-13º do mundo que soma sete ATPs, entre eles dois 500, e que decidiu Paris-Bercy há cinco meses.
Sem jamais abrir mão da profundidade – foram 16 winners -, Fonseca cometeu apenas nove erros não-forçados, um desempenho magnífico para seu estilo. Acredito que jamais tenha sacado tão bem. Muito mais do que os cinco aces, ganhou 25 dos 27 pontos com o primeiro serviço (cujo percentual de acerto chegou a bons 65%) e se deu melhor em 11 de 13 com o segundo saque. Ou seja, sacou 40 vezes e obteve sucesso em 36.
Por fim, em nova demonstração de como entra bem amparado na parte tática, João se antecipou aos ataques cruzados de forehand do adversário canhoto, o que obviamente exigiria consistência do backhand. Isso foi fundamental para obrigar Humbert a jogar mais e ao mesmo tempo abrir espaço para ataque de forehand após uma bola na paralela. A estatística mostra que o backhand marcou três winners e só cometeu três erros.
O desafio de segunda-feira se chama Alex de Minaur, um especialista na quadra dura, sobre a qual ganhou 7 de seus 9 ATPs. O australiano acabou de sair do top 10, posição nobre ocupada depois de marcar quartas de final nos quatro últimos Grand Slam disputados. Todo mundo sabe que faltam golpes matadores a Demo, que passa a maior parte do tempo baseado na Espanha e tem até um treinador espanhol no momento, Adolfo Gutierrez.
No entanto, nas condições lentas de Miami, De Minaur significa um considerável perigo a qualquer adversário. Defende-se muito bem e adora jogar com o peso da bola que vem para seu lado. Será um teste bem interessante para o brasileiro, que talvez precise mesclar ainda com mais apuro a ofensividade com a paciência de construir pontos.
Se mantiver o nível técnico e tático de suas duas últimas partidas e continuar colocando a responsabilidade de ganhar a quem está do outro lado da rede, Fonseca tem uma chance real de fazer mais história em Miami.
E mais
– Nenhum dos semifinalistas de Indian Wells passou da primeira partida, ou seja, vimos a eliminação muito precoce de Jack Draper, Holger Rune, Carlos Alcaraz e Daniil Medvedev.
– Até difícil dizer qual foi a maior surpresa, mas certamente David Goffin foi aplicadíssimo diante de um espanhol cheio de altos e baixos e, aos 34 anos, mostrou que ainda tem lenha para queimar no seu jeito bonito de jogar.
– Draper parou no bom Jakub Mensik, Medvedev não está bem fisicamente e viu um aguerrido Jaume Munar pela frente e Rune foi ao limite do tiebreak do terceiro set contra o super-sacador Reilly Opelka.
– Também deram adeus Andrey Rublev e Ben Shelton, mas os dois estão em fase irregular.
– A parte superior da chave feminina corre com naturalidade nestas primeiras rodadas, onde aparecerão com destaque os duelos Sabalenka-Collins e Paoline-Osaka. Na teoria, Gauff tem vida mais fácil principalmente porque voltou a jogar bem.
– No lado inferior, destaque para a grande vitória de Emma Raducanu sobre a top 10 Emma Navarro. Mas é o setor onde tem Mirra e Pegula, portanto muito difícil. Já Swiatek e Keys iniciaram a rota de colisão.
















