Com um resultado semelhante à rodada junho, as pesquisas de julho destacam a liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nos dois turnos, mas reaproximação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fez voltar a avaliação de que a eleição em outubro poderá ser decidida por um pequeno grupo de eleitores ainda distante dos pré-candidatos.
Na última pesquisa AtlasIntel, divulgada no dia 29, o petista manteve a dianteira no 2º turno, ao passar de 48,8% para 49,2%, enquanto Flávio oscilou de 42,3% para 42,9%. Aqueles que não souberam responder à pesquisa caíram de 8,9% para 7,9%.
Chamados em inglês de swing voters, os eleitores independentes representam menos de 10% do eleitorado, mas podem ser decisivos na disputa presidencial. Distantes da polarização, eles podem votar em um candidato de direita em uma eleição e migrar para um nome de esquerda no ciclo seguinte. Compreender o que influencia esse grupo e conquistar sua preferência tende a ser um dos principais desafios das campanhas de 2026.
Para o cientista social e professor de Políticas Públicas da UFABC, Ivan Filipe Fernandes, as candidaturas de Lula e Flávio Bolsonaro têm se mantido sólidas na liderança das pesquisas por causa do eleitorado fiel, que permanece como votante a despeito da maioria dos acontecimentos envolvendo os pré-candidatos, mas esses grupos não serão suficientes para vencer a disputa pela Presidência da República.
Fernandes pondera que Flávio pode ser o candidato mais dependente do apoio da base de apoiadores, o que encurta as chances da direita sair vitoriosa em outubro.
“Para ganhar uma eleição, essa base sólida precisa estar associada ao eleitor que, na literatura norte-americana, é chamado de swing voters, aqueles que, em uma eleição, votam na direita, e, em outra, na esquerda. E é aí, sobretudo, que Flávio se encontra ameaçado, porque ele vem perdendo a sua capacidade de construir uma maioria acima da própria base eleitoral”, afirma. “Então, não é que ele atinge o teto, mas ele se reduz ao piso”, conclui.
Para o professor de pós-graduação na FESPSP e cientista político Paulo Souza, o eleitorado taxado de indeciso é “praticamente a única parcela ainda disputável” por ambas as campanhas e determinará o resultado das eleições, mas a disputa por esse eleitorado pode estar atrelada a uma mudança nos índices de rejeição.
Rejeição e legado político jogam contra
O aumento no índice de rejeição parece ser justamente o grande desafio para Flávio. Pelo segundo mês consecutivo, o senador registrou 53% de menções negativas no índice de rejeição produzido pela pesquisa AtlasIntel.
O cenário é reforçado na maioria das pesquisas estaduais, como a última Real Time Big Data, que registrou 51% de rejeição ao postulante do Partido Liberal em Minas Gerais, um dos colégios eleitorais considerados estratégicos para a disputa presidencial.
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Em paralelo, Lula também mantém um alto índice de rejeição, de 49,4%, segundo a última AtlasIntel, acrescido de uma descrença dos eleitores de que um quarto mandato possa representar uma mudança na política brasileira. O cenário é reforçado pelo levantamento Genial/Quaest, que revelou que 51% dos entrevistados acham que Lula não merece mais quatro anos como presidente.
Para Ivan, o desgaste em torno da imagem do presidente é um resultado direto da repetição eleitoral causada pelo sucesso nas urnas, independentemente do bom desempenho econômico que Lula tem mostrado para a parcela mais pobre da população, que representa a maioria dos votantes.
“É o 12º ano do Lula como presidente do Brasil, indo aí com uma razoável chance de exercer mais quatro anos. É um desgaste natural no qual as posições políticas sobre o nome ficam mais consolidadas.”
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Para o cientista político Leopoldo Vieira, o cenário é semelhante ao analisar a avaliação da gestão petista, que, embora tenha obtido vitórias no plano político em 2026, mantém a avaliação limitada pelo efeito da polarização e do desgaste eleitoral trazido pela última década de instabilidade política.
“Existe um mal-estar social acumulado, resultante de um conjunto de fatores que se desenvolveu ao longo da última década: exaustão com o trabalho, rejeição ao modelo tradicional de emprego, dificuldades para empreender, aumento do custo de vida e uma crise de saúde mental, especialmente entre a população de baixa renda e a classe média. Tudo isso ocorrendo na esteira do medo, do luto e da raiva desencadeados pela pandemia de Covid-19”, destaca. “Esse quadro persistente, somado à polarização acirrada, ajuda a explicar os limites da popularidade”, acrescenta.
Vieira pontua, também, que o crescimento da avaliação “regular” na terceira gestão Lula pode estar dialogando com o eleitorado indeciso, ainda em disputa. Em abril deste ano, segundo a AtlasIntel, os que consideravam a gestão regular eram 7%, percentual que cresceu para 12,7% em julho, acompanhando a queda tanto na avaliação negativa quanto na positiva do governo.
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“Parte desse grupo migrou para Lula, parte permanece em compasso de espera e parte continua com Flávio”, analisa.
Tarifas 2.0 não produzem impacto
Em junho de 2025, a imposição de sobretaxas aos produtos brasileiros pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, rendeu a Lula um trunfo político: sair do refluxo de baixa nas pesquisas de avaliação do governo ao retomar a pauta de soberania nacional e transformar a crise nas relações internacionais em uma agenda positiva, atrelando o lulismo à bandeira nacional.
No entanto, a segunda leva de tarifas impostas pelos EUA em junho deste ano não teve impacto semelhante na imagem do governo e, ao que as pesquisas indicam, não deve impactar diretamente os resultados dos próximos meses.
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Os analistas convergem no entendimento de que a grande maioria do eleitorado tomou uma posição definitiva sobre o fato, seja responsabilizando o clã Bolsonaro pela atuação em prol das sobretaxas ou culpando Lula pelo impasse com o governo norte-americano.
Para Fernandes, há uma visível dificuldade para que novas tensões sobre o tarifaço se transformem em uma tensão de voto, porque o eleitorado sensível às questões internacionais já se posicionou, em ambos os lados do tabuleiro.
Disputa apenas começou
Apesar de o cenário eleitoral acirrado ser reforçado por um certo grau de estabilidade nas últimas pesquisas eleitorais, os três analistas convergem no entendimento de que a campanha eleitoral, que começa em 16 de agosto, pode abrir margem para novas mudanças no xadrez eleitoral jogado entre Lula e Flávio Bolsonaro.
“Até o dia da eleição, dado o retrato que a gente tem, haverá uma razoável incerteza sobre quem vai ganhar ou perder. Então, a minha expectativa é que, nas vésperas da eleição, tanto os apoiadores do atual governo quanto a oposição bolsonarista vão ter chance. A gente está no início da campanha, da organização das candidaturas, então é natural que haja uma incerteza a respeito dos seus resultados”, conclui Fernandes.
Para Souza, o distanciamento dos indecisos em relação a ambas as campanhas, mas principalmente à de Flávio, acende alertas semelhantes para ambos os postulantes: “Lula ainda tem dificuldades para capitalizar as realizações de seu governo e mobilizar alguns pontos percentuais para lhe dar a vitória. Flávio, por outro lado, vem oscilando para baixo e pode se consolidar em queda na próxima rodada. Assim, além de convencer os indecisos de que não é tão rejeitável assim, ele precisa reconquistar diversos grupos e partidos políticos que outrora lhe eram próximos para que voltem para o seu lado e não optem pela neutralidade”.
Vieira destaca que, apesar da liderança reforçada pela rodada de julho, o governo Lula precisará manter o foco na disputa, ignorando a vantagem momentânea e disputando os votos ainda em aberto. Já para Flávio, será preciso manter o entendimento de que a disputa ainda não foi decidida, mas a campanha precisará estar segura de que não sofrerá novos desgastes, como as revelações envolvendo a proximidade com Daniel Vorcaro e o atrito vivido com Michelle Bolsonaro no último semestre.


