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Home » 'Machosfera' brasileira: canais misóginos do YouTube transformam ódio em lucro com anúncios, doações e vendas online
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'Machosfera' brasileira: canais misóginos do YouTube transformam ódio em lucro com anúncios, doações e vendas online

RedaçãoBy Redaçãoabril 29, 2025Nenhum comentário9 Mins Read
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'Machosfera' brasileira: canais misóginos do YouTube transformam ódio em lucro com anúncios, doações e vendas online
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Influenciadores da machosfera movimentam milhares de reais na plataforma com conteúdo que promove ódio contra as mulheres, segundo pesquisa realizada pelo NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) . YouTube
Rashidul Islam/Unsplash
Quando criou o blog Escreva Lola Escreva, em 2008, a professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) e blogueira feminista não imaginava que dar visibilidade a casos de machismo e misoginia a colocaria no centro de uma campanha sistemática de ódio online.
Muito menos que, anos depois, esse mesmo discurso violento se tornaria altamente lucrativo.
“Desde a primeira semana de blog tinha comentários misóginos, mas não necessariamente ameaças”, relata Lola, que criou seu blog para ter liberdade editorial para falar sobre feminismo, cinema, literatura, política, entre outros temas.
“Em 2010, chegou até mim um link para sites masculinistas e comunidades no Orkut. Comecei a entrar e vi que eles já falavam sobre mim enquanto eu nem sabia da existência deles.”
Com o avanço da internet, esses grupos masculinistas ampliaram e diversificaram o discurso de ódio contra as mulheres e conquistaram legiões de seguidores.
Hoje, conseguem monetizar vídeos e transformam a misoginia em um negócio rentável, movimentando milhares de reais com conteúdos que pregam o controle sobre mulheres, deslegitimam o feminismo e reforçam estereótipos de gênero.
Atualmente, 137 canais no YouTube no Brasil publicam conteúdo explicitamente misógino, somando mais de 105 mil vídeos e cerca de 152 mil inscritos.
Pesquisa identifica 137 canais com conteúdo misógino no YouTube no Brasil
Os dados são de uma pesquisa realizada pelo NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), para o Ministério das Mulheres. Ela foi divulgada em dezembro do ano passado.
A pesquisa mapeou a chamada “machosfera” e descobriu que cerca de 80% desses canais adotam pelo menos uma estratégia de monetização, que incluem anúncios, doações em transmissões ao vivo, assinaturas e venda de serviços e produtos.
“A machosfera se divide em subculturas com diferentes níveis de misoginia, como os red pills, incels e até nomes menos conhecidos, como os ‘pick-up artists’, que ensinam técnicas de manipulação para conquistar mulheres e reforçam estereótipos de gênero”, diz Débora Salles, coordenadora do NetLab da UFRJ.
“Observamos que o ódio contra as mulheres se transformou num negócio rentável, não só para esses canais, mas principalmente para as plataformas. Nesse caso, para o YouTube.”
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O mercado da misoginia
Entre as estratégias para monetizar, a mais comum entre os canais analisados é a exibição de anúncios no YouTube: 52% deles exibem ao menos um vídeo com publicidade.
Em seguida, está o Programa de Membros da plataforma – ferramenta que permite ao público pagar uma assinatura mensal em troca de conteúdos exclusivos –, adotado por 28% dos canais misóginos. As assinaturas podem custar de R$12,50 a R$ 149 por mês, segundo a pesquisa.
No entanto, uma das formas mais lucrativas de monetização são os Super chats – doações feitas por espectadores durante transmissões ao vivo. Em 257 lives de oito canais, o estudo identificou uma arrecadação total que supera R$ 68 mil, com uma média de R$ 267 por transmissão.
Além das ferramentas da plataforma, 28% dos canais analisados também vendem cursos, produtos e serviços ou recebem doações por Pix.
Em alguns casos, influenciadores chegam a cobrar R$ 1 mil por consultas individuais que abordam desde “treinamento emocional” até conteúdos que naturalizam violência psicológica e humilhação. No caso da venda de e-books anunciados, os preços ofertados variam entre R$ 17,90 e R$ 397.
“Atualmente, as redes sociais são baseadas em uma economia da atenção que premia conteúdos sensacionalistas e divisivos”, diz Mariana Valente, professora da Universidade de St.Gallen e diretora do InternetLab, centro independente de pesquisa focado em internet e direitos humanos.
“Isso faz com que a plataforma não tenha interesse em controlar e eliminar esses conteúdos.”
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Políticas de proteção falhas
O YouTube proíbe, segundo suas diretrizes de uso, conteúdos que promovam violência ou discurso de ódio com base em sexo, gênero ou orientação sexual.
As regras se aplicam a vídeos, transmissões ao vivo, comentários e até links externos. A empresa afirma que, ao identificar esse tipo de conteúdo – inclusive por meio de denúncias –, ele é removido.
Na prática, a eficácia dessas políticas tem se mostrado limitada.
A pesquisa aponta que os produtores de conteúdo da machosfera empregam diversas estratégias para fugir da moderação do YouTube, como uma linguagem própria para mascarar o caráter misógino das mensagens.
“Percebemos que as plataformas e, mais especificamente, o YouTube, não estão conseguindo dar conta desse problema”, afirma Salles.
“Quem tem o poder de tirar esse conteúdo do ar é a plataforma, mas ela faz isso sem cumprir regras transparentes sobre quem pode ficar e por que fica, ou quem sai e por que sai.”
A blogueira feminista Lola viveu essa ambiguidade em 2018, quando tentou criar um canal no YouTube e descobriu que estava banida — apesar de nunca ter publicado vídeos nem infringido regras nos poucos comentários que havia feito na plataforma.
Professora Lola Aronovich
Arquivo pessoal
“Suspeito que meu nome tenha sido usado por grupos masculinistas para comentários de ódio até que eu estivesse banida”, conta Lola.
“Criei outro canal com um novo e-mail, que também foi removido no ano passado após denúncias dos masculinistas. Hoje, não posso ter nenhum tipo de remuneração lá.”
“É revoltante, porque eu não conheço quase nenhuma feminista que ganha dinheiro no YouTube, mas antifeminista é o que mais tem, e eles ganham muito dinheiro com isso”, completa a blogueira.
Procurada, a assessoria do YouTube não respondeu até a publicação deste texto.
Problema além do digital
Segundo especialistas, a cultura da machosfera ajudou a criar um ambiente tóxico para as mulheres nas redes sociais, especialmente aquelas com algum tipo de atuação pública – como políticas, jornalistas e influenciadoras digitais. Elas são constantemente hostilizadas e têm as vidas diretamente afetadas.
A criadora de conteúdo Ana Schreder diz que passou a ser alvo constante de ataques desde que viralizou no TikTok rebatendo comentários da comunidade red pill. Embora tenha mudado o foco dos vídeos para temas como autoconhecimento e bem-estar, a violência persistiu.
“Eles se incomodam absurdamente com o meu jeito de ser. Só o fato de eu estar na internet, sendo mulher, falando da minha vida, da minha autoestima, sem tentar agradar a homens, já é motivo para ataques”, afirma Schreder.
“Pegam vídeos meus do TikTok, publicam no X (antigo Twitter), fazem reações no YouTube, e os comentários são nojentos.”
Além de conteúdo com misoginia disfarçada, a pesquisa também encontrou vídeos que encorajam, relativizam ou justificam abusos e violências contra mulheres, utilizando argumentos que culpabilizam as vítimas ou normalizam comportamentos violentos.
“Meninos muito jovens têm acesso a esses conteúdos e vão naturalizando piadas que vão desde ‘lugar de mulher é na cozinha’ até um comentário de ‘se sua namorada te desagrada, você dá um tapão na cara dela'”, ressalta a diretora do InternetLab.
Segundo a pesquisa, o número de vídeos da machosfera no YouTube aumentou significativamente desde 2022, com 88% publicados nos últimos três anos.
No mesmo período, os dados de violência contra mulheres também aumentaram. Entre 2021 e 2023, o número de feminicídios subiu de 1.347 para 1.463, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Casos de violência doméstica e familiar também cresceram quase 10% entre 2022 e 2023.
Embora a pesquisa não estabeleça uma relação direta entre o crescimento desses discursos e o aumento da violência, a ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, afirmou à reportagem que o ódio contra as mulheres disseminado nas redes repercute no país inteiro.
“Esse tipo de discurso termina por autorizar a violência que tem crescido contra meninas, adolescentes e mulheres idosas no Brasil”, afirma Gonçalves.
“Estamos vivendo um momento muito complicado e, para o governo federal, uma regulação mínima das plataformas é estratégica. Para o Ministério das Mulheres, essa regulação é fundamental para que as mulheres não vivam nessa situação constante de violência.”
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Desafio da regulação
Ao longo dos anos, à medida que o blog de Lola Aronovich se consolidava como uma das principais referências do movimento feminista no Brasil, os ataques misóginos e a perseguição por parte de grupos masculinistas também se intensificavam.
As agressões incluíam ameaças diretas e até a criação de sites com o objetivo de difamar sua imagem. Lola afirma que ainda recebe ameaças diretas com frequência.
“Todo final de ano eles me ligam para dizer que vai ser meu último Natal e Ano Novo viva. Muita gente me pergunta como lido com isso e, infelizmente, a gente se acostuma. É horrível dizer isso, porque não deveríamos ter que nos acostumar, mas é verdade.”
O ativismo de Lola e suas denúncias ao longo dos anos resultaram, em 2018, na aprovação da chamada Lei Lola – a primeira legislação brasileira a incluir o termo misoginia, e que atribui à Polícia Federal a responsabilidade de investigar a disseminação de conteúdos de ódio contra mulheres na internet.
No entanto, cerca de sete anos após a criação, a blogueira afirma que a lei ainda não foi devidamente implementada.
“Desde que a lei foi criada, tentamos marcar uma reunião com a direção da Polícia Federal para discutir questões básicas, como a criação de um canal específico de denúncias e os critérios de aplicação da lei, mas até hoje não conseguimos avançar.”
Especialistas destacam que a falta de regulamentação eficaz da internet, somada à não aplicação das leis existentes, permite que conteúdos misóginos sigam circulando e gerando lucro. Sem regulação, as plataformas não são obrigadas a removê-los.
Segundo Mariana Valente, o Marco Civil da Internet, aprovado em 2014, foi um passo importante ao estabelecer diretrizes para responsabilizar provedores em casos específicos, como a divulgação não consensual de imagens íntimas.
No entanto, ela ressalta que a legislação ainda é insuficiente para enfrentar o conjunto de violências digitais com base em gênero.
Segundo especialistas, a regulação não pode ser vista como solução única e precisa estar atrelada a um conjunto de políticas públicas que envolvam diferentes áreas, como educação, saúde, segurança e justiça. “Isso tem que ser adotado como um objetivo por muitos atores sociais”, afirma Valente.


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