Nem arrependimento nem excitação. Estranho como a expectativa de voltar a Nova York depois de 11 anos sem por os pés lá não despertava em mim nenhum sentimento desses. Até eu finalmente sair andando por aquelas ruas pela primeira vez desde 2015.
Não foi uma ausência planejada. Nova York não é uma experiência da qual você enjoa, daquelas que você acorda um dia e diz: “já deu, não preciso ir lá de novo”. Apaixonado por cidades como sou, esse é um destino que nunca risco do mapa.
Ocorre que dos meados dos anos 2010 para cá, viagens para a Europa e pela Ásia apareceram com mais frequência. Assim, Nova York foi ficando no esquecimento.
O que não me impediu de dizer sim quando surgiu uma ótima oportunidade para voltar para a cidade onde eu já havia morado, como correspondente desta Folha (1989), e que eu visitava, no começo deste século, três ou quatro vezes por ano.
Talvez essa falta de empatia com o retorno, como coloquei acima, fosse um disfarce para a minha excitação. Fato é que ele caiu por terra assim que eu fiz check-in e parti para minha primeira missão nostálgica: comprar o jornal The New York Times de domingo, dia em que cheguei.
Era um dos meus rituais favoritos da cidade. Hoje é uma missão impossível. Não achei nas Hudson News do aeroporto JFK, tampouco nas bancas de revistas ali por Times Square, onde me hospedei. A gorda edição dominical de papel do jornal agora deve ser só privilégio de assinantes.
Outras mudanças detectadas logo de cara: as grandes lojas estão cada vez mais parecidas; Times Square agora é um tapete de telas de LED; parece que menos carros circulam por suas ruas (o que não significa que o trânsito melhorou); e a silhueta da cidade conta com estranhos espigões.
Os novos ninhos de milionários despontam como agulhas duvidosas na paisagem urbana oferecendo estupendas vistas, dos rios, do Central Park, para seus moradores abastados sem contribuir nada para a beleza do conjunto arquitetônico de Manhattan.
Vi esses monstrengos espelhados, uma aberração diante de tantas outras contribuições fantásticas para desenho da ilha, especialmente em Chelsea, de pontos de vistas privilegiados. Primeiro do Top of the Rock, o rooftop do Rockefeller Center que eu não sei como eu não tinha visitado até hoje!
Depois, de uma das novidades mais bem-vindas para o turista, o Summit. Que linda surpresa me deparar com aquele observatório espelhado, longe 91 andares da sua irmã mais velha, a Grand Central Station. Uma visão vertiginosa e lúdica.
Centenas de turistas saíam com um sorriso no rosto, e eu não fui uma exceção. Como bônus, ainda subi num elevador especial que te leva até o 101º andar. Sim, eu dancei no céu sobre Manhattan.
Uma espécie de clichê, eu sei, mas falar sobre Nova York é esbarrar constantemente neles —e sempre que possível, evitá-los. Vou enfrentar essa dificuldade nas próximas colunas, ao escrever mais a fundo sobre essas e outras atrações, da Bienal do Whitney à península Gasenvoort.
Se não me sair bem, pelo menos vou estar em boa companhia. Frank Sinatra: a cidade que nunca dorme. Alicia Keys: selva de concreto onde nascem os sonhos. E esta própria Folha, que um dia revelou ao mundo que Nova York é, de fato, uma grande maçã.
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