Neste domingo, cerca de 27 milhões de peruanos dirigem-se às urnas para eleger o nono presidente do país em apenas uma década. Esta eleição crucial ocorre em um cenário de profunda instabilidade política, caracterizado por sucessivas renúncias, destituições e um parlamento influente que tem moldado o destino do país andino.
O segundo turno polarizado confronta a direitista Keiko Fujimori, que obteve 17,1% dos votos no primeiro turno, contra o esquerdista Roberto Sánchez Palomino, que alcançou 12,0% da preferência eleitoral. Analistas apontam para um resultado incerto, apesar da vantagem inicial de Fujimori.
Os Candidatos e Seus Legados
Keiko Fujimori carrega tanto o apoio quanto a forte rejeição associados ao legado de seu pai, o ex-ditador Alberto Fujimori (1990-2000), condenado por violações de direitos humanos, incluindo a esterilização forçada de mulheres indígenas. Segundo o antropólogo Salvador Schavelzon, da Unifesp, essa herança gera uma polarização intrínseca ao cenário político peruano, mobilizando um significativo eleitorado “anti-Fujimori”.
Por outro lado, Roberto Sánchez Palomino, ex-ministro e aliado de Pedro Castillo, representa a bandeira do “anti-fujimorismo”. Ele propõe uma reforma constitucional para substituir a Carta Magna herdada da era Fujimori e defende amplas reformas sociais visando a expansão de direitos. Sánchez também atrai o voto do interior e das populações rurais, setores que apoiaram Castillo anteriormente.
Implicações Geopolíticas Regionais
A eleição peruana pode influenciar a correlação de forças na América Latina, onde se observa uma tendência de alinhamento com os Estados Unidos, evidenciada em países como Equador, Bolívia, Argentina e Chile. Salvador Schavelzon prevê que uma vitória de Fujimori provavelmente solidificaria um alinhamento do Peru não só com os EUA, mas também com a extrema-direita do continente.
No entanto, Schavelzon pondera que mesmo uma vitória de Sánchez não implicaria uma ruptura imediata com Washington ou com governos de direita na região. A fragilidade dos governos progressistas e nacionalistas na América do Sul, que ainda lutam para formar um polo “anti-imperialista”, limitaria as opções geopolíticas de um eventual governo Sánchez. Sua prioridade seria a consolidação interna frente a uma forte oposição congressual, tornando improvável uma mudança de rumo geopolítico significativo.
Uma Década de Turbulência Política
O último presidente peruano a cumprir integralmente seu mandato foi Ollanta Humala (2011-2016), cujo governo foi marcado pelo escândalo Odebrecht, culminando em sua condenação por lavagem de dinheiro em 2025. Desde então, o país tem enfrentado uma sucessão inédita de chefes de Estado.
Pedro Castillo, eleito em 2021 contra Keiko Fujimori, foi destituído, preso e condenado por tentativa de golpe de Estado ao tentar dissolver o Parlamento. Seus apoiadores argumentam que ele foi vítima de perseguição do poder legislativo.
Sua vice, Dina Boluarte, assumiu a presidência, mas enfrentou forte repressão a manifestações, resultando em 49 mortes, segundo a Anistia Internacional. Com baixíssima aprovação, Boluarte foi destituída pelo Congresso em outubro de 2025. Seguiram-se os breves mandatos de José Jerí, presidente do Parlamento, e José María Balcázar Zelada, eleito indiretamente, exemplificando a contínua instabilidade institucional do Peru.


