Albatrozes e petréis, aves marinhas que frequentam águas brasileiras em busca de alimento e temperaturas amenas, lideram a lista de espécies aviárias mais ameaçadas globalmente. Esta alarmante crise de conservação foi destacada no Dia Mundial do Albatroz, 19 de janeiro, data que marca o início da vigência do Acordo para a Conservação de Albatrozes e Petréis. O objetivo é amplificar a conscientização sobre a biologia única dessas aves oceânicas e a premente necessidade de sua proteção.

Ameaça Invisível: A Captura Incidental na Pesca de Espinhel

A principal causa do declínio populacional dos albatrozes é a captura incidental pela pesca de espinhel em alto-mar. Esta técnica passiva utiliza uma longa linha com múltiplos anzóis iscados para atrair peixes comerciais. Albatrozes, atraídos pelas iscas, acabam presos nos anzóis e morrem por afogamento. Anualmente, cerca de 300 mil aves marinhas são capturadas incidentalmente em todo o mundo, das quais 30 a 40 mil são albatrozes e petréis. No Brasil, aproximadamente 4 mil albatrozes morrem por essa causa, principalmente em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.

Segundo Tatiana Neves, bióloga e coordenadora-geral do Projeto Albatroz, a situação exige a adoção rigorosa de medidas mitigadoras pelas frotas pesqueiras. Ela observa que, apesar dos esforços em diversos países, muitas espécies continuam declinando em ritmo acelerado.

Projeto Albatroz: Décadas de Esforço pela Conservação

O Projeto Albatroz, patrocinado pela Petrobras desde 2006, dedica-se à conservação dessas aves migradoras que interagem com barcos pesqueiros nas águas brasileiras. Criado em 1990 por Tatiana Neves, o projeto surgiu da percepção do impacto global da morte desses animais, com centenas sendo capturadas por embarcações de espinhel no Sul e Sudeste do Brasil àquela época.

Atualmente, o projeto mantém bases de pesquisa em quatro estados e inaugurou, em 2023, o primeiro Centro de Visitação e Educação Ambiental Marinha em Cabo Frio (RJ). Este centro oferece trilhas, pontos de observação e atividades educativas em uma das regiões com maior ocorrência de albatrozes e petréis na costa brasileira.

Medidas de Mitigação e Desafios de Fiscalização

As medidas de mitigação propostas incluem: largada noturna dos anzóis; uso de pesos de chumbo para um afundamento mais rápido das linhas de pesca; e a adoção do toriline, uma linha espanta-pássaros com fitas coloridas instalada na popa do barco para afastar as aves das iscas na superfície. A aplicação simultânea dessas medidas pode reduzir a captura incidental de albatrozes em até 90%.

No entanto, a implementação enfrenta desafios. Tatiana Neves destaca que, embora parte dos pescadores adote as práticas, o monitoramento em alto-mar é complexo. Para fortalecer a proteção, são necessárias mais políticas públicas que garantam a implementação efetiva. O Plano de Ação Nacional para a Conservação de Albatrozes e Petréis (PAN-AP), coordenado pelo ICMBio e coexecutado pelo Projeto Albatroz, busca mitigar a captura acidental e proteger áreas de reprodução.

Fiscalização e Monitoramento

O Ibama realiza ações de fiscalização para verificar o uso dessas medidas. Enquanto o uso de pesos padronizados na linha, que permite o afundamento rápido dos anzóis, pode ser fiscalizado no porto, outras medidas como o toriline são difíceis de verificar em alto-mar. Atualmente, discute-se no governo brasileiro a implementação de sistemas de monitoramento por câmeras ou eletrônicos para superar essa dificuldade e garantir a conformidade.

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