O astro Ryan Gosling se sentiu intimidado em sua primeira cena com Sandra Hüller, em Devoradores de Estrelas. A atriz alemã também não facilitava com seu rosto impenetrável. Posicionado ao lado dela, Gosling ouviu o desafio: “Aposto uma corrida até a bicicleta”. A atriz começou a andar rápido e ele, desorientado, saiu correndo atrás. Ela estava quebrando o gelo de seu rosto sisudo — e a marcha cômica dos dois, que vivem cientistas salvando o mundo, entrou no corte final do filme. Aos 48 anos, Sandra furou a bolha de Hollywood, cravando seu lugar entre os nomes mais requisitados do cinema internacional.
Neste ano, após o sucesso de Devoradores de Estrelas, que fez 650 milhões de dólares em bilheteria, atuou em outra grande produção americana, o provocativo Digger, com Tom Cruise. Na quinta-feira 29, chega aos cinemas brasileiros com A Terra do Meu Pai (Fatherland, Polônia/ Alemanha/ França/ Itália, 2026), dirigido pelo polonês Paweł Pawlikowski e forte candidato ao Oscar de melhor filme internacional pela Polônia. Na trama, interpreta Erika, filha do Nobel da Literatura Thomas Mann, a quem acompanha em uma viagem pela Alemanha dividida do pós-guerra. Há ainda um quarto longa no horizonte, Rose, representante da Áustria no prêmio americano e que deu a ela um troféu de melhor atriz no Festival de Berlim — na trama, vive uma mulher travestida de homem em um vilarejo no século XVII. Nas apostas, Sandra surge com chances de múltiplas indicações ao Oscar de 2027.

O triunfo da atriz faz jus a uma frase irônica que diz: “foram vinte anos para fazer sucesso da noite para o dia”. Cria dos teatros de Berlim, ela obteve reconhecimento no cinema com o intrigante Réquiem (2006), sobre uma jovem com epilepsia submetida a rituais de exorcismo, que lhe rendeu seu primeiro prêmio em Berlim. Passada uma década, conquistou projeção internacional com a ótima comédia alemã Toni Erdmann (2016), sobre uma filha às turras com o pai abobalhado. A consagração definitiva aconteceu em 2023, quando estrelou os soberbos Anatomia de uma Queda e Zona de Interesse.
O apelo da atriz é fácil de entender. Poliglota, atua com fluência em alemão, inglês e francês — e fala um pouco de espanhol. Versátil e dona de uma intensidade discreta, é capaz de dominar uma cena sem esforço ou exageros. Tem ainda uma característica rara entre os atores de hoje: a imprevisibilidade. Nunca se sabe exatamente o que esperar de seus personagens. Em A Terra do Meu Pai é calada, mas altiva. Em poucos momentos explode por dramas pessoais ou dores políticas. Faz isso com elegância ímpar. Não há fronteiras para esse tipo de talento.
Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2026, edição nº 3018
Fonte: Abril


