
Representatividade também acontece na TV e no streaming Nesta noite de domingo, o país inteiro fez uma pausa nas comemorações do Carnaval para acompanhar – ao menos um pouco – a cerimônia do Oscar, que neste ano teve um gostinho especial para o Brasil, com as indicações do filme Ainda Estou Aqui aos prêmios de Melhor Filme Internacional, Melhor Filme e Melhor Atriz para Fernanda Torres.
Aos 59 anos, Fernanda concorreu pela primeira vez à estatueta. Foi a segunda da família: há 25 anos, sua mãe, Fernanda Montenegro, concorreu ao mesmo prêmio pelo filme Central do Brasil.
Infelizmente, as duas Fernandas perderam: Montenegro para Gwyneth Paltrow à época com 26 anos e Nanda para Mickey Madison, de 25.
Para mim foi impossível não fazer uma analogia com o filme A Substância. Nele, uma personalidade de TV acima dos 50 anos (Demi Moore, de 62), é sumariamente descartada por homens também acima dos 50 para dar lugar a uma apresentadora com doses a mais de colágeno e menos da metade de sua idade.
Fiquem à vontade para achar que sou despeitada ou que acredito demais em teorias da conspiração, mas caramba, impossível não associar a ficção à realidade. Ainda mais porque, nos dois casos, a impressão que fica é que o que parece ter sido avaliado não foi exatamente o talento e a experiência. Mistérios que não sabemos…
E aí que pensando nisso, dou de cara com um fato que comprova essa teoria.
Um estudo feito entre 2010 e 2020 pela consultoria americana Next 50 em parceria com o Geena Davis Institute, organização não-governamental fundada pela atriz Geena Davis – 69 anos e famosa por filmes como A Mosca e Thelma e Louise – mostrou que, embora o reconhecimento das mulheres 50 esteja crescendo, quando se trata da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood elas não recebem o mesmo reconhecimento que os homens na mesma faixa etária.
Ao contrário do Globo de Ouro, que este ano nos fez festejar duplamente pela estatueta de Fernanda e por ter apenas mulheres acima dos 50 anos concorrerem à estatueta de Melhor Atriz.
Sem dúvida foi um fato histórico, mas que enganou muita gente (como eu) que achou que o Oscar estava indo para o mesmo caminho.
Segundo a tal pesquisa, desde 1930, ou seja, há 95 anos, apenas 19% das vencedoras na categoria de Melhor Atriz tinham 50 anos. Enquanto isso, 34% dos vencedores do prêmio de Melhor Ator eram 50+, mostrando uma diferença de gênero de 15 pontos percentuais.
A coisa fica ainda pior para a categorias de Coadjuvante, onde 43% dos vencedores são do sexo masculino e 24% das vencedoras do sexo feminino têm mais de 50, uma diferença de gênero de 19 pontos.
Além do cinema, o estudo também revela que há a mesma falta dessa representatividade na TV. Ele mostra, por exemplo, que nos EUA, personagens masculinos superam significativamente os femininos na faixa dos 50+ anos: 80% em filmes, 75% na TV aberta e 66% em plataformas de streaming.
E que o número de comédias românticas produzidas é infinitamente muito menor para personagens com mais de 50 anos – personagens mais jovens têm duas a três vezes mais probabilidade de vivenciar uma história de amor. Afinal, pessoas mais velhas não se apaixonam e não fazem sexo não é mesmo?
Para ajudar a contornar o problema, o documento faz algumas sugestões. Entre elas, criar histórias em que as pessoas 50+ se sintam retratadas; escalar mulheres – especialmente as negras e não brancas – para papeis tradicionalmente masculinos, reforçando a diversidade de raça e gênero, incluindo também a comunidade LGBTQIA+.
Não tratar o envelhecimento como piada e, por último, não perpetuar uma ideia negativa sobre o envelhecimento, mas sim promover o respeito e a valorizar todas as fases da vida.
Apesar da ressaca e do sono que estou sentindo hoje, penso que é urgente que a indústria do cinema e da TV disponibilizem às atrizes maduras papeis que desafiem estereótipos e mostrem a diversidade de experiências que nós temos ao longo da vida.
Não cabe mais, em 2025, que as pessoas continuem a achar que depois dos 50 viramos senhorinhas. Nada disso. Precisamos brigar e mostrar que não só isso foge totalmente da realidade, como continuamos sendo a mesma versão de nós mesmas, porém mais turbinadas, experientes, seguras e bem cientes das manipulações que ocorrem por aí.
Só assim a mídia em geral irá refletir a realidade de forma autêntica e mostrar, na tela da TV, do cinema e nas capas de revista, como somos diferentes e múltiplas. Somos senhoras, sim, mas só do nosso destino.
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