A falência do banco digital Ueno, uma das maiores instituições financeiras paraguaias, levou ao congelamento dos depósitos de cerca de 3 milhões de pessoas e abriu uma crise política no país: nesta quinta-feira, 5, o presidente Santiago Peña apresentou sua renúncia em meio a um processo de impeachment que o acusava de conflito de interesses e favorecimento ao banco — ao qual era conectado até 2025, como acionista de sua holding.
A instituição também administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos. Desse total, aproximadamente US$ 380 milhões são do Instituto de Previdência Social, que reúne fundos de aposentadoria e saúde.
O colapso deixou clientes sem acesso às próprias contas bancárias, aplicativos e cartões. Entre os afetados estão muitos brasileiros que vivem no Paraguai e dependem dos serviços da instituição. Além disso, a quebra do banco vai interferir no pagamento de benefícios a aposentados no país.
A situação causou protestos nas ruas da capital paraguaia, Assunção. Centenas de manifestantes voltaram a protestar pedindo a devolução do seu dinheiro e o julgamento do presidente. Na véspera, longas filas se formaram nas agências do Ueno Bank, com clientes querendo sacar seu dinheiro.
A crise começou ontem, depois que o Banco Central do Paraguai (BCP) decidiu intervir no Ueno Bank por insuficiência de capital. Com isso, os serviços da instituição foram suspensos. O BCP decretou a intervenção depois de perceber que o índice de solvência do Ueno caiu para menos da metade do mínimo exigido por lei.
Acusações contra Peña
Quase metade dos 6,4 milhões de paraguaios tem conta no banco. O escândalo levou à renúncia do presidente do BCP, Carlos Carvallo. Peña, por sua vez, virou alvo de um processo de destituição na Câmara dos Deputados, pois possuía ações do Grupo Vázquez, que controlava o Ueno, das quais se desvinculou em março de 2025.
A oposição o acusou de tomar “decisões regulatórias supostamente favoráveis” ao banco digital e de concentrar recursos previdenciários na instituição, evocando ecos do escândalo Master no Brasil. O texto do impeachment também falava em “conflito de interesses”, além de conter questionamentos sobre o aumento do patrimônio de Peña, que saltou de pouco mais de 1,3 bilhão de guaranis (cerca de R$ 840 mil) em 2017 para mais de 23 bilhões de guaranis (aproximadamente R$ 19 milhões) até 2023 — uma multiplicação de 23 vezes.
O colapso também provocou mudanças na cúpula do sistema financeiro paraguaio. O Congresso aprovou um dos três candidatos indicados pelo Executivo para recompor o conselho diretor do Banco Central, instituição que apresentou denúncia contra o Ueno Bank, resultando na prisão de oito pessoas, entre elas seu presidente, Miguel Vázquez.
Fonte: Abril


