A prisão do ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ) por autoridades de imigração dos Estados Unidos e sua posterior liberação abriram uma nova frente de atrito entre o Brasil e o governo de Donald Trump, expondo versões conflitantes e um ambiente político propenso à escalada de tensões.
Para Fábio de Sá e Silva, professor brasileiro do Departamento de Estudos Internacionais de Oklahoma, a expulsão do delegado Marcelo Ivo de Carvalho, que vivia nos EUA e trabalhava como oficial de ligação no ICE, serviço de imigração, demonstra um “total desencontro” entre Trump e o presidente Lula (PT).
“Enquanto não há uma reunião entre os dois [presidentes], acho que o ambiente é de total desencontro politicamente”, diz ele, para quem a versão anunciada pelo Brasil somada à rápida soltura de Ramagem revelam um desencontro que vai além do episódio em si. “Era um caso talvez mais operacional, mas, quando você leva ao nível político, ele é explosivo.”
O professor cita ainda que o episódio pode demonstrar que o governo Trump já acumulava alguma ressalva com a última crise entre os países, quando o Brasil negou o visto de Darren Beattie, conselheiro de Trump. “O Lula, por sua vez, está em uma fase em que, por questões eleitorais, vem também explorando esse antagonismo com os Estados Unidos.”
A nova crise começou quando Ramagem foi detido pelo serviço de imigração americano na semana passada. Autoridades brasileiras afirmaram que a ação havia ocorrido no âmbito de uma cooperação entre os dois países.
Dias depois, ele foi solto e, na sequência, o Departamento do Estado, por meio do Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental, acusou o delegado Marcelo Ivo de Carvalho, sem citar seu nome, de ter “manipulado” o sistema migratório para contornar canais formais, classificando a atuação como uma extensão de “perseguição política” em território americano.
“Essa divulgação [por parte do governo brasileiro] criou mais ruído porque ela não definiu muito bem de que forma teria acontecido essa interação entre o delegado brasileiro e o ICE e convidou para a politização do caso”, diz o professor.
Um ex-conselheiro de Donald Trump, que concordou em analisar o atual cenário em condição de anonimato, afirma que há pouca disposição dentro do governo americano para atender demandas associadas ao governo Lula, o que amplia a chance de decisões técnicas serem revistas quando ganham visibilidade política.
Segundo ele, o ambiente do Departamento do Estado é marcado por resistência ao governo brasileiro, ausência de interlocutores americanos com conhecimento aprofundado do Brasil e menor peso de diplomatas de carreira nos processos decisórios.
Após a expulsão do brasileiro dos EUA, o governo Lula decidiu aplicar o princípio da reciprocidade e expulsar o americano que trabalhava na Polícia Federal com questões ligadas a imigração —ele também já deixou o Brasil e está de volta ao território americano.
Na avaliação do ex-conselheiro, a crise também expõe diferenças na forma como os dois países operam sua política externa, especialmente em relação ao princípio da reciprocidade. Segundo ele, o Brasil leva o princípio muito a sério, enquanto os EUA não.
Ele afirma que a forma como o caso foi conduzido pode ter contribuído para a escalada. Segundo sua avaliação, a atuação brasileira pode ter sido inicialmente tratada como um procedimento rotineiro dentro da burocracia americana, sem que o contexto político fosse plenamente considerado. Quando isso mudou, a reação foi imediata.
O ex-conselheiro de Trump avalia que há risco de uma escalada baseada em retaliações sucessivas.
A preocupação é compartilhada por Sá e Silva. “Na ausência de entendimento, a gente vai viver ciclos. A cada dois ou três meses surge um novo problema”, diz.
O episódio ocorre em um momento sensível para os dois países, com pressões políticas internas influenciando a condução da política externa. De um lado, o governo Lula tem adotado um discurso mais assertivo em relação aos Estados Unidos. De outro, setores ligados a Trump tendem a interpretar ações brasileiras sob uma lógica ideológica.
Para Sá e Silva, a saída para evitar novas crises passa por um alinhamento direto entre os presidentes. “Seria importante um encontro para estabelecer prioridades comuns e evitar que questões menores continuem gerando atritos”, afirma. Sem isso, diz, a tendência é de continuidade do atual cenário. “Essa tensão permanente não ajuda ninguém.”






















