O nome dela é Eva, Eva do Amaral Coelho. Do nada, raio em céu claro, emergiu da obscuridade à celebridade. Revoltada com a limitação dos “penduricalhos” a juízes, a desembargadora do Pará, cujo contracheque limpo de março ultrapassou R$ 90 mil, ergueu um grito de guerra: “Daqui a pouco a gente vai estar no rol daqueles funcionários que trabalham em regime de escravidão”. A hipérbole extrema provocou uma catarse nacional de indignação moral que, da atmosfera contaminada das redes sociais, saltou aos veículos da imprensa profissional.
O fenômeno relevante, contudo, não é o que ela disse, mas a própria catarse. Eva Sem Noção certamente expressa a histórica desconexão entre os fidalgos da República e os cidadãos comuns do Brasil. Evidencia o descolamento entre a retórica judicial da igualdade perante a lei e a arraigada convicção de tantos magistrados na naturalidade de seus privilégios. Sinaliza, ainda, a resistência corporativa da casta judiciária à aplicação da regra constitucional que traça uma fronteira à exorbitância remuneratória. Mas a cólera de Eva Alienada é mero sintoma: ela não move moinhos.
As redes formam o ambiente perfeito para a pregação da integridade moral e, como implicação, a queima virtual de hereges flagrados em declarações execráveis. A prática gratuita tornou-se negócio lucrativo tocado por multidões de influencers. Entretanto, em meio a uma crise existencial, o jornalismo envereda pela imitação: a semana de Eva foi precedida por incontáveis episódios catárticos pelos quais submete-se o público à pedagogia da virtude e do vício.
O jornalismo da indignação moral concentra-se em inconsequentes escândalos retóricos individuais, ocultando as infâmias institucionais críticas. A algazarra em torno da Eva Insensata configurou o cenário ideal para a encenação da derrubada dos “penduricalhos” promovida pelo STF. A notícia de verdade, que obteve menor repercussão, é outra: os magistrados encarregados de proteger a Constituição decidiram violá-la, oficializando uma série de “penduricalhos” a juízes e procuradores.
Os magistrados traíram a Constituição, mas não a corporação. Circundando o teto constitucional, criaram um “sobreteto” (o que a linguagem não faz?) que ultrapassa em 70% o limite legal. Metade disso sob o rótulo de “verbas indenizatórias” e metade sob a etiqueta de tempo de carreira. A lei vale, mas apenas para os outros.
No rastro do terremoto moralista precipitado pela Eva Imponderada, Flávio Dino publicou suas sugestões para uma reforma do Judiciário. Não é o que parece. O elenco de ideias, aliás dignas de análise, não abrange um código de conduta para o STF.
De fato, a iniciativa de Dino tem a dupla finalidade de desviar as atenções das relações promíscuas de dois de seus colegas com os negócios piramidais de Vorcaro e de alinhar a maioria do tribunal em torno de uma “agenda positiva” capaz de enterrar o código de conduta. Lampedusa na veia: “Se queremos que tudo permaneça como está, é preciso que tudo mude”.
O 13º da Eva Escrava garante dois ingressos à final da Copa dos Milionários, junto com passagens de executiva, hotel cinco estrelas e restaurantes Michelin. O “sobreteto” legislado pelo STF só exigiria alguma economia hoteleira –ou a providencial carona em jatinho companheiro. Mas ele move moinhos.
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